27/12/11

No ponto

Mais ou menos na metade. Mais precisamente na página 60. No início do conto “Eu, Tu, Ele”. Queria terminar de ler o livro (que ganhei do Felipe, que já tinha sido indicado pela Karina), mas não posso. Não me atrevo a deixar passar. Preciso disso agora. Estava mesmo na hora mais do que na hora de fechar mais um ciclo. A vida não é feita deles? Ou de colheitas?
Penso que poderia ser de noite, mas não é. Penso que poderia ter bebido, mas não bebi, não fiz nada para alterar o momento. Hoje não quero nenhuma percepção alterada. Minha inspiração vem do momento importante que vivo, e das palavras do Caio que leio ao som de Billie Holiday. Apenas fechei um ciclo. Para outro começar e começar livre e começar leve e impor sua presença de vez e encantar minhas pupilas desgastadas, mas renovadas e encorajadas por este novo.
Bem assim, pensei como no conto “Além do Ponto” em tudo que eu andava fazendo e sendo e eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era... chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz?
O que posso dizer além de que o Caio caiu como uma luva? como uma chuva com vento que rebosteia de pó a vidraça para que depois a limpemos até a próxima tempestade. Assim, ó, porque os morangos já haviam mofado há tanto. E a colheita precisava de outros cuidados outras culturas.
O definitivo fechamento de um ciclo. E me atrevo, agora que assisto de fora o que esteve dentro. Dentro onde estive por anos sem saber a saída. E assistir também é doloroso, pois enxergo o que me cegava e é triste. Mas a hora é de plantar e viver outro começo e saborear as frutas da estação, nem verdes nem maduras demais, suculentas, no ponto. 
Então fecho e deixo que o mofo encontre de vez o seu lugar no passado.

23/11/11

Tigresa

as garras da felina me marcaram o coração
mas as besteiras de menina 
que ela disse "não"
e eu corri pra o violão num lamento
e a manhã nasceu azul...
(Tigresa, Caetano)

é a unha afiada da tigresa que nunca cansaço. é o pote de leite que nunca cheio. sim, bebi toda a inspiração numa só noite. felina que sou, eu, toda arrepiada, toda ouriçada de lamber o próprio pelo. eu não sou mais nem menos. apenas caetaneando versos transcendentes, animalescos versos de cetim sobre viver. há dois meses parei de fumar, hoje fez falta. há tempos rumos novinhos em folha brotaram no meu verde. refugiada no mais solar dos calores. apenas aprendendo o que nunca saberei, o que não lembrarei nas próximas marcas de expressão. expressarei no momento exato da retina. felina que sou, sem poder ouvir "tigresa". sem poder estancar o novo, o sempre desejado novo artifício de mim mesma, de minha esfera perante o não sei o quê. feirante. sem mais acidez. é apenas a unha afiada que nunca satisfação.

Camila Doval, obrigada pela inspiração, por me fazer escrever algo que calava em minha mente há dias...

Matinal

Amo mais pela manhã
Ao despertar em teus braços
No reclame do ombro dormente
Quando dormimos novamente
Sem compromisso

Amo mais pela manhã
Ao acariciar teu corpo
No gelo do inverno
Quando não vejo o destino tardio
Sem desespero

Amo mais pela manhã
Ao sentir o sol penetrando a janela
No convite para o passeio
Quando leio um canto de riso
Sem preocupação

Não se discute
Amo mais pela manhã
Bom dia pra sempre!

22/11/11

apenas além

quero não olhar
pra trás
já que o caminho é adiante
e bastante
e além

alguém
deslocado no tempo
no espaço que não
longe de quem

apenas além
desse muro
desse mundo
de vasta hostilidade

apenas além
nascido ao acaso
do descaso, da ausência
de onde nunca estarei

apenas além
do que não basta e não gasta
perecível à próxima parada
além do apenas

Ciranda

Botar o ver do verde mar
No desbotar do ver
A namorada que vem do nada
Nadar na direção
Do reencontrar

triste é perceber no seu inverno o calor que outros verão