25 de dezembro de 2008

E o que ficou de bom?


E o curso acabou. Pelo menos as aulas, pois ainda tenho dois trabalhos pra entregar - sem contar o trabalho final (mas este já engatilhado com aval do orientador). E o que ficou de bom? Vejamos: além do que aprendi sobre Literatura, e não foi pouco (já que tivemos professores e aulas excepcionais), parece-me ainda que o mais importante foi a amizade. Construída aos poucos, formando fortes laços. Só tenho a agradecer a todos vocês e desejar que esses laços não se desfaçam. Não é pieguice. Tá bom, talvez um pouco. Mas, ah, azar! É fim de ano e todos temos o direito de ser um pouco piegas nesta época. Só nesta época =)

23 de dezembro de 2008

Para Viviane Schitz

A paixão segundo G.H.


O mundo independia de mim – esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer senão timidamente assim: a vida se me é. A vida se me é, e eu não entendo o que eu digo. E então adoro.

(trecho final desta obra prima)
Clarice Lispector


E então adoro saber que temos tanto em comum. Que a G.H. que conhecemos da literatura se nos é. E se nos é porque não sabemos (não queremos) construir o todo sem antes desconstruí-lo, degustando cada parte. E então adoro saber que, assim, formaram-se os laços. E eu não entendo o que digo. E se eu não entendo o que digo, não é por culpa da barata. Deve ser essa afinidade, que espontânea, não requer explicação. E então adoro.



Este é meu! Espero que a Clarice não se importe,
mas a minha amiga Vivi merece =)

16 de outubro de 2008

Bambos

É no olhar maduro
daquele menino
que se equilibra nas costas
do outro menino
para nos apresentar
o seu malabarismo bambo na sinaleira
que encontro o pior de mim
de nós
toda a hipocrisia de quem chora
sem coragem de encarar a vergonha
de ver a vida que o menino vive
de deparar-se com a realidade 
dura e crespa
pueril e próxima
e não fazer (quase) nada
a não ser retribuir com um sorriso melancólico
(quase) falso
e escrever esses versos bambos
(quase) inúteis
que não se equilibram em nada

15 de outubro de 2008

O guarda-roupas

Hoje resolvi arrumar meu guarda-roupas
e enquanto desamontoava e dobrava as peças
ia tentando organizar minhas ideias
o meu quebra-cabeça interior

Separei roupas que só precisavam ser lavadas
separei umas que sabia que nunca mais usaria
e outras que há muito tempo não usava
mas que continuavam ali
pesando, ocupando espaço
tempo memória

Libertei-me

Preparei uma sacola grande de roupas
que já não são minhas
são de outros
e depois serão de outros
e outros

O meu guarda-roupas?
quase vazio, mas organizado e limpo
pelo menos por agora

As minhas ideias?
quase vazias, mas organizadas e limpas
e minhas

As roupas é que seguirão
de mão em mão
até virarem farrapos

14 de outubro de 2008

Fernanda Young

A escritora, roteirista, apresentadora e atriz Fernanda Young é aquele tipo de personalidade que ou se ama ou se odeia. Depois de conhecer o seu trabalho, não dá pra ficar indiferente. Eu particularmente gosto dela desde o tempo do programa Os Normais, escrito por ela e por seu marido Alexandre Machado. Atualmente ela apresenta o divertidíssimo Irritando Fernanda Young. Do seu ofício como escritora, eu só conhecia o livro Aritmética. E foi com essa obra que ela ganhou a minha admiração de vez. Faltava conhecer a sua veia poética. Não falta mais. Nesse fim de semana li Dores do Amor Romântico. Nem vou dizer o que achei. Vou postar dois poemas e que cada um decida se ama ou odeia.

Quando de novo você voltar
eu te contarei sobre o mar
que cobriu o seu corpo
- lá, onde eu não estava -
mas saberei descrever as
estrelas limpinhas que nãobrilharam no meu rosto,
estendido na areia em que eu
não deitei. E irei lavar as
nossas roupas brancas
- dessas que a gente só usa
nas viagens de praia -
aquelas mesmas que nãotiramos, bêbados dos drinques
que não brindamos, mas que
eu passei e dobrei e coloquei
dentro da sua mala que parte
para o destino que nunca será o
meu.

Estou na bolha de novo. E nada vai me salvar.
Não há um verso perfeito que nasça daqui.
Sou uma mulher oca. Choro porque os amigos
estão tristes. Não entendo. Nem há remédio que
me fará entender.
A bolha é macia. Mesmo porque ela é a minha
cama. Lá fora faz um barulho que bem distingo.
Tem serra elétrica, batedeiras, buzinas, choros.
Daqui escuto tudo, cada coisa de cada vez.
É que dentro dela, fico sensitiva: sou mediúnica.
Reconheço os que me amam e os que me odeiam:
tudo o mesmíssimo nada. Sensível, mas distante.
Não quero mais ficar de pé. Não vou correr,
não vou às compras. Não acredito em mim.
Não quero beijos. Na bolha, é assim:
o que vier de bom é sono, mesmo que
com esses sonhos de passado, quando a exclusão
bate na minha porta outra vez
e outra vez e outra vez.
Adeus. Agora sou eu que parto. Debaixo do meu
lençol mágico, nenhum carteiro me encontra.

27 de agosto de 2008

Cai uma chuva fina II

Portas e janelas fechadas revelam
mais um dia de trabalho
um dia trivial

a chuva fina que cai
atrapalhando o trânsito
denuncia o ocorrido

Os homens passam atrapalhados
pela chuva e pelo corpo
passam apressados para
mais um dia de trabalho
e os poucos que olham o corpo
o fazem por mera curiosidade

Um no entanto olha para cima
vê o prédio do mais duro concreto
depois fixa seus olhos
naqueles olhos desconhecidos
sem brilho sem vida
olhos libertos
que não mais precisam
de guarda-chuva

Inspirado no poema Momento num café, de Manuel Bandeira.

20 de agosto de 2008

Cai uma chuva fina

Janela fechada bordada de cinza
cai uma chuva fina uma teima atroz
o frio cai e congela as horas
paira um decifrar constante
num enrolar vagar e indissolúvel

Janela aberta bordada de asfalto
paira uma alma em pedaços
depois cai

Janela aberta no décimo andar
bordada de cinza de asfalto de dor
convida a chuva fina que cai
a espreitar o desbotar de uma vida
de uma alma que não viu a chuva
dar lugar ao sol no dia seguinte

13 de agosto de 2008

Ventura

Se por ventura encontrar em meu olhar um vazio
Não me chame que sou capaz de me perder na eternidade dessa lacuna
Não me julgue nem me descubra que o frio vem pesado e corta
Deixe meu engendrar andar sozinho que me encontro melhor

Se por ventura encontrar em meu olhar um vazio
Não me chame que hoje acordei antes da hora

11 de agosto de 2008

Do Cotidiano ao Sublime

“O poeta não é um sujeito que vive no mundo da lua, perpetuamente entretido em coisas sublimes. É, ao contrário, um homem profundamente misturado à vida, no seu mais limpo ou mais sujo cotidiano.”
Manuel Bandeira - O Grande "Poeta Menor"

17 de julho de 2008

Fingidor II

Que poeta é esse
Que finge que sente
O que não sente?

Ou será que sente
O todo individual
E torna universal
O que sente
Toda a gente?

1 de abril de 2008

O aquário

a menina olha encantada o aquário repleto de cores
os peixes dançam a água dança a menina balança
e se cansa de ver o cárcere das criaturas vivas
que aguardam do "dono" a comida
resignados à distância do mar
proibidos de sonhar com
o azul-liberdade

31 de março de 2008

Alma de criança

As palavras me completam
Penso, escrevo, leio
Releio, relento

Sou dona da primeira crítica
Esse direito é todo meu
Relembro, receio

Gosto quando a ideia vem
Enxurrada primaveril
Rebentar represa viva
De versos e sentimentos

Primeiro escrevo para mim
Depois, para aquele que ler
Este poema até o fim
E perceber em minha poesia
Alma de criança a dançar

11 de março de 2008

Medo


Vai.
Olha o caminho que te espera.
Percorre resignado a sinuosa via.

Aceita.
Teu passado é teu peso.
E quem disse que fácil seria?

Aproveita.
Sente a harmonia que prospera.
Respira cada instante de alegria.

Luta.
Quem dera saber desde cedo
Que sem medo nada se cria.

10 de março de 2008

5 de março de 2008

Promessa

Amadurecer?
Quem?
Eu? 
Tudo bem.
Prometo tentar.
Mas na medida certa
Que é para não apodrecer.

4 de março de 2008

Entrelinhas

Minhas entrelinhas
são profundas.
Minhas palavras
são o que se vê.

Minhas entrelinhas
não são expostas.
Minhas palavras
querem ser.

Minhas entrelinhas
são só minhas.
Minhas palavras,
de quem quiser ler.

28 de fevereiro de 2008

Doce, mas amargo!


Ela abre a geladeira com fome de respostas. Naquele dia em que tudo era doce o que aconteceu? Já notou como o gosto pode ser transitório? Um abacate, por exemplo. Úmido, macio e levemente doce. Suave. Perfeito. Basta fechar os olhos e deixar aquela pasta morna escorregar garganta abaixo. O que sobra? O amargo. Sentido na parte de trás da língua, o amargo impera. Mesmo assim ela gosta de abacate. Fecha a geladeira percebendo que não há respostas. O abacate é assim. Ponto. Nada naquela caixa fria a atraiu. Decide apenas tomar um café. Doce.

27 de fevereiro de 2008

Escrevo para quê?

"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."

Clarice Lispector