27 de agosto de 2008

Cai uma chuva fina II

Portas e janelas fechadas revelam
mais um dia de trabalho
um dia trivial

a chuva fina que cai
atrapalhando o trânsito
denuncia o ocorrido

Os homens passam atrapalhados
pela chuva e pelo corpo
passam apressados para
mais um dia de trabalho
e os poucos que olham o corpo
o fazem por mera curiosidade

Um no entanto olha para cima
vê o prédio do mais duro concreto
depois fixa seus olhos
naqueles olhos desconhecidos
sem brilho sem vida
olhos libertos
que não mais precisam
de guarda-chuva

Inspirado no poema Momento num café, de Manuel Bandeira.

20 de agosto de 2008

Cai uma chuva fina

Janela fechada bordada de cinza
cai uma chuva fina uma teima atroz
o frio cai e congela as horas
paira um decifrar constante
num enrolar vagar e indissolúvel

Janela aberta bordada de asfalto
paira uma alma em pedaços
depois cai

Janela aberta no décimo andar
bordada de cinza de asfalto de dor
convida a chuva fina que cai
a espreitar o desbotar de uma vida
de uma alma que não viu a chuva
dar lugar ao sol no dia seguinte

13 de agosto de 2008

Ventura

Se por ventura encontrar em meu olhar um vazio
Não me chame que sou capaz de me perder na eternidade dessa lacuna
Não me julgue nem me descubra que o frio vem pesado e corta
Deixe meu engendrar andar sozinho que me encontro melhor

Se por ventura encontrar em meu olhar um vazio
Não me chame que hoje acordei antes da hora

11 de agosto de 2008

Do Cotidiano ao Sublime

“O poeta não é um sujeito que vive no mundo da lua, perpetuamente entretido em coisas sublimes. É, ao contrário, um homem profundamente misturado à vida, no seu mais limpo ou mais sujo cotidiano.”
Manuel Bandeira - O Grande "Poeta Menor"