16 de outubro de 2008

Bambos

É no olhar maduro
daquele menino
que se equilibra nas costas
do outro menino
para nos apresentar
o seu malabarismo bambo na sinaleira
que encontro o pior de mim
de nós
toda a hipocrisia de quem chora
sem coragem de encarar a vergonha
de ver a vida que o menino vive
de deparar-se com a realidade 
dura e crespa
pueril e próxima
e não fazer (quase) nada
a não ser retribuir com um sorriso melancólico
(quase) falso
e escrever esses versos bambos
(quase) inúteis
que não se equilibram em nada

15 de outubro de 2008

O guarda-roupas

Hoje resolvi arrumar meu guarda-roupas
e enquanto desamontoava e dobrava as peças
ia tentando organizar minhas ideias
o meu quebra-cabeça interior

Separei roupas que só precisavam ser lavadas
separei umas que sabia que nunca mais usaria
e outras que há muito tempo não usava
mas que continuavam ali
pesando, ocupando espaço
tempo memória

Libertei-me

Preparei uma sacola grande de roupas
que já não são minhas
são de outros
e depois serão de outros
e outros

O meu guarda-roupas?
quase vazio, mas organizado e limpo
pelo menos por agora

As minhas ideias?
quase vazias, mas organizadas e limpas
e minhas

As roupas é que seguirão
de mão em mão
até virarem farrapos

14 de outubro de 2008

Fernanda Young

A escritora, roteirista, apresentadora e atriz Fernanda Young é aquele tipo de personalidade que ou se ama ou se odeia. Depois de conhecer o seu trabalho, não dá pra ficar indiferente. Eu particularmente gosto dela desde o tempo do programa Os Normais, escrito por ela e por seu marido Alexandre Machado. Atualmente ela apresenta o divertidíssimo Irritando Fernanda Young. Do seu ofício como escritora, eu só conhecia o livro Aritmética. E foi com essa obra que ela ganhou a minha admiração de vez. Faltava conhecer a sua veia poética. Não falta mais. Nesse fim de semana li Dores do Amor Romântico. Nem vou dizer o que achei. Vou postar dois poemas e que cada um decida se ama ou odeia.

Quando de novo você voltar
eu te contarei sobre o mar
que cobriu o seu corpo
- lá, onde eu não estava -
mas saberei descrever as
estrelas limpinhas que nãobrilharam no meu rosto,
estendido na areia em que eu
não deitei. E irei lavar as
nossas roupas brancas
- dessas que a gente só usa
nas viagens de praia -
aquelas mesmas que nãotiramos, bêbados dos drinques
que não brindamos, mas que
eu passei e dobrei e coloquei
dentro da sua mala que parte
para o destino que nunca será o
meu.

Estou na bolha de novo. E nada vai me salvar.
Não há um verso perfeito que nasça daqui.
Sou uma mulher oca. Choro porque os amigos
estão tristes. Não entendo. Nem há remédio que
me fará entender.
A bolha é macia. Mesmo porque ela é a minha
cama. Lá fora faz um barulho que bem distingo.
Tem serra elétrica, batedeiras, buzinas, choros.
Daqui escuto tudo, cada coisa de cada vez.
É que dentro dela, fico sensitiva: sou mediúnica.
Reconheço os que me amam e os que me odeiam:
tudo o mesmíssimo nada. Sensível, mas distante.
Não quero mais ficar de pé. Não vou correr,
não vou às compras. Não acredito em mim.
Não quero beijos. Na bolha, é assim:
o que vier de bom é sono, mesmo que
com esses sonhos de passado, quando a exclusão
bate na minha porta outra vez
e outra vez e outra vez.
Adeus. Agora sou eu que parto. Debaixo do meu
lençol mágico, nenhum carteiro me encontra.