29 de julho de 2010

verde-veludo

Lívia acordou e saiu da cama. Era cedo ainda. Não costumo despertar a essa hora, mas sinto uma intensa necessidade de sair, ver as ruas, as cores do dia, do calor. Sentia que algo poderoso e inusitado a aguardava em algum lugar. Que rua devo seguir? De repente, virei estátua em frente a uma vitrine estampada de mistério. Agora sei o que vim fazer aqui. É isso, será? Uma forte e viva sensação a intrigava. Aquele vestido, com certeza, fora costurado especialmente para Lívia. Como que em seu próprio corpo as agulhas e linhas buscavam o contorno exato. Eu fitava o verde-veludo-musgo, quase vivo. Era vida sim. Sentiu. Senti o toque macio e um tanto pesado daquele verde. Saí radiante possuidora do que não era nem de perto uma simples veste, era pele já. Assustou-me a nudez pálida do manequim solitário. Pareceu-me melancolia naquele olhar.

Ela passou a usar seu vestido-pele-natureza o tempo todo. Não podia tirá-lo jamais. Proteção, força, calor, verde, respiração. Era corpo já. Uma nova vida. Algumas flores eram bordadas da noite para o dia sem que eu percebesse. Um desabrochar. As cores brotavam. Brilho nos olhos, sensualidade, desejo úmido, aconchego, perfume. Era jardim já. A cada manhã, novas nuances de vida. Felicidade era aquilo, então? Sorria para o espelho, para a rua, sentia-se esplêndida. Seu traje era a plenitude da vida iluminada pelo sol matinal. O sublime. Era vida já. E os raios solares deixavam as cores mais vivas. Tudo vibrava. Mas o tudo é também efêmero.




Por que não consigo estancar essas lágrimas? Um desespero me assola e não sou capaz de controlar meu medo. Não sou capaz de nada. Estarrecida, sentada aos pés da cama, Lívia notava seu verde desbotando, as folhas caindo, as pétalas murchando. E chorou pressentido o fim daquela estação musgo-verde-veludo-vida. O sono custou-me a chegar naquela noite fria, não queria acreditar no que sentia. Uma a uma, fui perdendo minhas cores, minha vibração. Ao acordar, pouco pude mexer do meu corpo coberto por uma névoa que escondia uma nudez solitária. Tentei correr até aquela vitrine nutrindo a esperança de que meu verde-veludo continuasse vivo. Precisava estar. Ou outra cor poderia substituí-lo? Andei o mais rápido que pude, porém o frio demorava meus passos e aumentava minha angústia. 

Através do vidro, Lívia não conseguia crer no que seus olhos presenciavam. O manequim continuava com sua pálida nudez. E a melancolia no olhar dele era a sua própria melancolia. A dor dele era a sua dor. Lívia era manequim já. Sentiu-se rodeada de vitrine naquele corpo frio, plástico, sem veludo, sem nada. Observava a outra que acabara de levar seu vestido-pele-vida. Olharam-se por instantes. Lívia via uma tristeza sólida no olhar do manequim. Era gelo já. Lívia, no entanto, imóvel, via suas cores quentes vibrarem no olhar da outra. Ela foi distanciando-se com o verde-veludo sem virar para trás, mas sentia o olhar que a penetrava.

Era inútil gritar por socorro, não havia voz.
Queria ao menos poder fechar os olhos.