9 de dezembro de 2010

Cicatriz

há noites em que tudo é faca
cortes precisos são abertos
pelo branco da luz da lâmina
em nossas cabeças
quanto mais conversa fiada
mais afiada a faca

Nos olhamos e rimos sangue

há dias em que tudo é faca
adormecemos nossos corpos
sobre navalhas cansadas
espelhos de toda a sorte
sussurrando vida ou não

quanto mais perto do âmago
mais longe do fio da faca

afundamos em dor devagar
sentimos toda a amargura
futricamos os erros
enxergamos além da conta
além das pontas cortantes
até costurar os retalhos

há momentos em que tudo é faca
então sabemos o quanto ganhamos
satisfeitos com lutas sem perdas
e rimos dos ferimentos expostos

as facas não são as mesmas
e uma leve brisa de cicatriz já nos acolhe

4 comentários:

  1. Lindo! Visceral!
    Demorarei para pensar a respeito. Voltarei a lê-lo, estou ainda sob o primeiro impacto. Pablo.

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  2. Puxa, Pablito, que bom ler teu comentário. Saber que a faca tocou a ti tbm :D

    Beijão!!

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  3. Facas são facas, e não lâminas. É a força expressiva que se revela, o tom pessoal, a singularidade. E aqui se afasta dos códigos de um duvidoso bom-gosto. Não é uma poesia abstrata, é visceral, está na noite e a faca corta. É a diferença entre a poesia moderna e a poesia clássica. Poderás chocar aos puristas do estilo, mas aqui tua voz soa noturna, afiada, tua - e original.
    Pessoalmente, gostaria de ver o tema mais desenvolvido, mas a concisão também é uma faca.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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