27 de dezembro de 2011

No ponto

Mais ou menos na metade. Mais precisamente na página 60. No início do conto “Eu, Tu, Ele”. Queria terminar de ler o livro, mas não posso. Não me atrevo a deixar passar. Preciso disso agora. Estava mesmo na hora mais do que na hora de fechar mais um ciclo. A vida não é feita deles e de colheitas?
Penso que poderia ser de noite, mas não é. Penso que poderia ter bebido, mas não bebi, não fiz nada para alterar o momento. Hoje não quero nenhuma percepção alterada. Minha inspiração vem do momento importante que vivo, e das palavras do Caio que leio ao som de Billie Holiday. Apenas fechei um ciclo. Para outro começar e começar livre e começar leve e impor sua presença de vez e encantar minhas pupilas desgastadas, mas renovadas e encorajadas por este novo.
Bem assim pensei como no conto “Além do Ponto” em tudo que eu andava fazendo e sendo e eu não queria que ele visse nem soubesse, mas depois de pensar isso me deu um desgosto porque fui percebendo, por dentro da chuva, que talvez eu não quisesse que ele soubesse que eu era eu, e eu era... chovia sempre e eu custei para conseguir me levantar daquela poça de lama, chegava num ponto, eu voltava ao ponto, em que era necessário um esforço muito grande, era preciso um esforço tão terrível que precisei sorrir mais sozinho e inventar mais um pouco, aquecendo meu segredo, e dei alguns passos, mas como se faz?
O que posso dizer além de que o Caio caiu como uma luva? como uma chuva com vento que enche de pó a vidraça para que depois a limpemos até a próxima tempestade. Assim, ó, porque os morangos já haviam mofado há tanto. E a colheita precisava de outros cuidados outras culturas.
O definitivo fechamento de um ciclo. E me atrevo, agora que assisto de fora o que esteve dentro. Dentro onde estive por anos sem saber a saída. E assistir também é doloroso, pois enxergo o que me cegava e é triste. Mas a hora é de plantar e viver outro começo e saborear as frutas da estação, nem verdes nem maduras demais, suculentas, no ponto. 
Então fecho e deixo que o mofo encontre de vez o seu lugar no passado.

23 de novembro de 2011

Tigresa

as garras da felina me marcaram o coração
mas as besteiras de menina 
que ela disse "não"
e eu corri pra o violão num lamento
e a manhã nasceu azul...
(Tigresa, Caetano)

é a unha afiada da tigresa que nunca cansaço. é o pote de leite que nunca cheio. sim, bebi toda a inspiração numa só noite. felina que sou, eu, toda arrepiada, toda ouriçada de lamber o próprio pelo. eu não sou mais nem menos. apenas caetaneando versos transcendentes, animalescos versos de cetim sobre viver. há dois meses parei de fumar, hoje fez falta. há tempos rumos novinhos em folha brotaram no meu verde. refugiada no mais solar dos calores. apenas aprendendo o que nunca saberei, o que não lembrarei na próxima expressão. expressarei no momento exato da retina. felina que sou, sem poder ouvir "tigresa". sem poder estancar o novo, o sempre desejado novo artifício de mim mesma, de minha esfera perante o não sei o quê. feirante. sem mais acidez. é apenas a unha afiada que nunca satisfação.


Matinal

amo mais pela manhã
ao despertar em teus braços
no ombro dormente
e dormimos novamente
sem compromisso

amo mais pela manhã
ao acariciar teu corpo
no gelo do inverno
quando vejo o destino tardio
sem desespero

amo mais pela manhã
ao sentir o sol penetrando a janela
no convite para o passeio
quando leio um canto de riso
sem preocupação

não se discute
amo mais pela manhã
bom dia pra sempre

22 de novembro de 2011

Ciranda

botar o ver do verde mar
no desabrochar do ser
a namorada que vem do nada
nadar na direção
do reencontro

alcunha

o peito sangrou
acima da carne
escárnio da solidão

o sangue coagulou
debaixo da unha
apertou o dedo
libertou o medo
alcunha da dor

17 de novembro de 2011

Ecos literários

O melhor da Feira do Livro é que ela nunca termina. Sempre ficam os ecos literários. Este ano participei de dois seminários sobre literatura e, é claro, aproveitei para perambular pelas vielas catando bons livros e boas promoções. Encontrei A Rosa do Povo, de Drummond, por apenas dez reais. Um êxtase poético.


Ainda tive uma bela surpresa ao comprar, por cinco reais, o livro Contos de Oficina, organizado por Luiz Antonio de Assis Brasil. Li e apreciei muitos textos do livro que é resultado da Oficina de Criação Literária da PUC. Parabéns aos escritores!


"Livro sim, livro não, todos os vãos constando na estante. A macela secando no varal. O resto do sabonete melando a saboneteira. O café perdendo o aroma na caixa."  

Do conto Frio, de Camila Doval

18 de outubro de 2011

a primeira manhã


ela acorda ansiada
no peito o coração a saltitar
embriagada pelo sol da primeira manhã
nunca soube esconder nada de si
nunca quis nada além de sentir

sentia o rio no mesmo lugar
sentara muitas luas à sua margem
ouvia sua dança inquieta
sabia-o lá
o curso é que mudara
movendo tudo brutalmente
pra perto e pra longe

e de tudo saberia apenas o fugaz
e do instante quereria apenas o óbvio
e a leveza do vento assim escreveria a seu gosto
que o tempo também solidifica

14 de outubro de 2011

a última noite

ela sonha uma sombra sólida que salpica o céu
fel da última noite em que vagam essas frias memórias
não se vingue nem se engane
a faca em punho não salvará
essa lâmina não lapida nem fere
essa lápide não te pertence
abandone esse sentimento fosco
essa semente improdutiva 
de tudo que não vingou 
e virou estátua num clique
o tempo mói

19 de setembro de 2011

Strange Fruit

ao som de Strange Fruit
misturada ao blues do quarto ao lado
que me toca, me toma
bebo um vinho pálido
vindo, inundado, regado
por raízes improváveis
profundas, quase intactas
frutas estranhas
úmidas de um sangue sem cor
o mesmo que circula
naquele que esquece
de sim
de si

30 de agosto de 2011

Boa noite

Dorme, poesia infame
Sonha teus versos imundos
Enquanto o poeta te abandona
Vagabundo
Fazendo drama
Indo pra cama
A desejar-te

23 de agosto de 2011

Mais eu em mim

por onde anda
a música
o canto
a poesia
o desejo
a emoção
o imprevisível
a inspiração

por onde anda
o eu em mim

27 de junho de 2011

Tão longe, tão perto


Não espero que a fumaça
Do meu último cigarro
Alcance teus olhos em brasa
Que alcance, então, a alma
Da tua voz precipitada
Pra acalmar meus instintos
Psicóticos
Neuróticos
Que sou
Suicida de mim

24 de maio de 2011

Someone like you

Ninguém disse que seria
Ninguém sabia
Nem eu
Nem nada

Nada no mundo poderia nos mostrar antecipadamente
O brilho
O puro olhar da emoção
Da coragem e da força
Do teu paradeiro em mim

Alguém como você nutre em mim o sono perfeito  
Pronto para abrir os olhos
Na madrugada de amor

Alguém como você faz de mim a nuvem
Pronta para a precipitação
Molhando o asfalto

Alguém como você amanhece em mim o azul
Pronto para clarear o tempo
Do temporal que já

E apenas estreamos o guarda-chuva

17 de maio de 2011

Toque Dela


Marcelo Camelo supera minhas expectativas e faz um show perfeito no Opinião. Com a Hurtmold novamente e o naipe de metais incluindo o Bubu do Trompete, o show foi muito mais pegado que o do disco Sou. Galera gritando e cantando sem parar, muita emoção :D

11 de maio de 2011

sob fogueiras

um dia o sol brilha mais
não há proteção
as queimaduras precisam de abrigo
não tenho
não sou assim

projeto na luz um jeito de mundo 
desvelado, de veludo
onde no intenso, no imenso
do vazio que não é
da azia que não vem
no interior de tudo que protegemos

dos sonhos acalentados
somos acordados pelos latidos
de tudo que ainda não há
daquilo que nunca fomos
ontem são
amanhã foram 
dias corridos de descanso
dormidos pro fundo

desperto da dor
as queimaduras precisam de abrigo
não tenho

em mim
apenas me deixo 
me queimem de um todo

22 de janeiro de 2011

Desfocado


um homem solitário, uma estrada fria. e um coração acompanhado pela lua. ele não olhava para trás. só ouvia o som do motor de um carro que se aproximava.
ela diminuiu a velocidade do automóvel e o acompanhou por alguns instantes. perguntou se precisava de ajuda, para onde ia. ele viu um rosto desfocado. uma demasiada confusão o oprimia. não sabia quem era, não a conhecia. agradeceu a atenção, a carona.
preferia sua caminhada de abandono.
a estrada era negrume iluminada pelos faróis. e pela lua. a luz das estrelas, todas juntinhas, cada uma no seu lugar; também solitárias.
ele seguiu seu rumo, se é que havia um.
quem poderá saber?
percebeu que os faróis haviam sumido. tudo mais escuro, solidão pesando no corpo exausto, nos passos desgastados. ouviu a voz dela outra vez. decidiu olhar para trás por um momento. não podia perder o foco. do quê?
no rosto cansado do andarilho acenderam-se pupilas. permitiu-se prestar atenção naquela voz. será que estava variando? seria um anjo?
o carro mal estacionado na estrada vazia-torta-infinita ali ficou.
.
"se tu não queres me acompanhar, eu te acompanho..."
.
aceitou aquela companhia, ainda que desfocada.
na noite alta, o céu caiu. aproximou-se, aproximou-os. caminharam juntos pelo asfalto refeito, duro pedaço de vida em ilusão.
.
acompanhados de sonhos,
andaram sem fim até o fim,
e ainda mais além,
e ainda mais,
e ainda,
e só