30 de dezembro de 2012

Bergère


"Procurei em volta algum tom de verde semelhante àquele. Não havia nenhum. Folhas que jamais recebem sol, musgo, fundo de garrafa - um pedaço de vidro que achara certa vez na areia, tão verde e polido pelo sal e as águas que era como se tivesse absorvido a cor das profundezas do mar. Era assim, o verde da poltrona." 

do livro Onde Andará Dulce Veiga?
Caio Fernando Abreu

28 de dezembro de 2012

Desabafo

que bom que és real
que bom que me encontraste a tempo
há tempo pra tudo, amor
há tempo pra nós
há tempo pra todos

que se encontrem, então
que sejam felizes os que não entenderam
que compreendam de vez o que aconteceu
entre paredes desacreditadas

que saibam, enfim
do que é capaz
o amor

27 de dezembro de 2012

um dois três quatro

Outra vez o despertador não tocou. Lúcia chegaria atrasada no escritório. Na verdade não sabia se as pilhas estavam fracas, se ela tinha desligado o maldito botãozinho dormindo ou se o relógio do quarto estava meio doido como o da cozinha, que funciona quando quer (e no momento está parado). Uma incógnita. O mais provável é que suas mãos, impulsionadas pelo seu subconsciente, tivessem feito o serviço. Merda! Vou chegar atrasada outra vez e ter que olhar aquela cara de bunda do meu chefe.

Corre, Lúcia, corre! Levanta de uma vez. Escova os dentes. Não há tempo para o fio dental. O cabelo preso também ajuda a ganhar tempo. Hoje nem maquiagem. Pelo menos um pouquinho de corretivo. Ando com umas olheiras profundas. E vestir roupa com esse frio é horrível. Que droga! A gaveta das meias estava uma bagunça. Prometeu que naquela noite arrumaria. Pegou meias de pares diferentes. Azar! Ninguém verá meus pés com essas botas, mesmo. Corre, Lúcia. Veste aquela calça jeans, aquele casaco e deu. Que diferença faz? Mas faça isso mais rápido, mulher!

Ok! Lúcia tinha cinco minutos para terminar de se arrumar, tomar um gole de café, pegar a bolsa, o celular, a chave e botar um perfuminho. Banho com esse frio de manhã? Nem pensar! Vamos lá! Eu consigo, eu sei que consigo! Já fiz isso um milhão de vezes. Ao chegar na cozinha para o gole de café (solúvel porque cafeteiras dão muito trabalho) olhou a hora. Sete e trinta e cinco. Putz! Tinha que estar na parada às sete e quarenta, no máximo, pra pegar o ônibus das sete e quarenta e dois e chegar no escritório às oito e quinze. Apenas quinze minutos atrasada. Talvez o chefe nem enchesse o meu saco hoje.

Lúcia conseguiu sair de casa. Fechou a porta com aquela sensação de que havia esquecido algo. Fosse o que fosse, agora não voltaria, seria muito transtorno. Saiu do prédio com pressa. Praticamente correndo. Chegou mesmo a correr para não perder o ônibus. Uma corrida que valeu a pena, foi o que pensou naquele momento.

Enfim, sentada na poltrona razoavelmente confortável, ia rumo a mais um dia cansativo de trabalho. Não tinha dormido muito bem naquela noite. O namorado havia ligado. Lúcia ficou contente achando que ele iria sugerir saírem na sexta pra comemorar o aniversário de namoro. Estava enganada. Ele só queria avisar que viajaria a trabalho no fim de semana. Filho da puta! O sangue ferveu. Mas Lúcia não chorou. Desligou o telefone na cara dele e não chorou. Que incrível! Não senti vontade de chorar. Tá certo! O Lucas era um cara legal, bonito, mas e aí? Só isso? Lúcia estava cansada de como apenas ela se importava com aquele relacionamento. Também andava estressada com o trabalho e, talvez, consigo mesma.

Pelo menos não tinha perdido o ônibus. Seriam apenas quinze minutos de atraso. Mas, quer saber? Foda-se! Quando eu chegar no escritório vou pedir um aumento pro meu chefe. Vou dizer que o que ele me paga é uma exploração e que se ele não melhorar o meu salário vou denunciá-lo pra Receita Federal. Quero ver a cara daquela babaca!

Durante a viagem, olhou para os lados e achou que aquele ônibus estava meio estranho. Diferente. Será que peguei o ônibus errado? Os bancos pareciam maiores e tudo estava tão vazio. Acho que ainda não acordei direito. Só então Lúcia lembrou de uma coisa curiosa. O relógio da cozinha tinha voltado a funcionar. Ou será que o Lucas tinha arrumado? Não, não, ele não esteve ali. O mais estranho é que o relógio voltou a funcionar na hora certa... Eu, hein! Coisa doida! Mesmo assim precisava de um estoque de pilhas. Compraria ainda hoje depois do trabalho.

E quando chegar em casa vou ligar pro Lucas e dizer tudo que penso sobre ele. Vou falar que se ele quiser continuar comigo, vai ter que me valorizar. Quem ele pensa que é? Muitas coisas vão ter que mudar. A começar pela mania irritante que ele tem de subestimar a minha inteligência. Estou quase convencida de que ele é mesmo um chato! Mas hoje resolveremos isso.

Ah, Lúcia também precisava ligar para os pais. Há dias não falava com eles por falta de tempo e por todas essas desculpas que os filhos ficam criando. Mas hoje mesmo vai ligar e dizer o quanto ama os dois. Quero dar mais atenção a eles. Incrível como estavam envelhecendo rápido. Quanto tempo mais os terei por perto? O que vou fazer quando eles se forem? E quando essa hora chegar, quem deveria morrer primeiro? Quero dizer, quem superaria melhor a perda do outro? Preciso ligar urgente para eles.

De repente, Lúcia abriu os olhos vagarosamente. Caralho! Acho que dormi no ônibus. Que merda! Onde estou? Será que passei do ponto? O quanto atrasada estou? Minha cabeça dói. UM DOIS TRÊS QUATRO. Era como se Lúcia estivesse num daqueles sonos profundos em que a pessoa sabe que está sonhando e diz pra si mesma para acordar, mas não consegue. Ela não conseguia se libertar daquela viagem interminável.

Tudo estava diferente. Achou ter aberto os olhos novamente, mas não lembrava de tê-los fechado. Agora o ônibus estava rápido demais. Lúcia não viu o motorista. O ônibus apenas ia. E Lúcia não conseguia se mexer. Uma angústia atravessou-lhe os ossos, as entranhas exatamente quando viu o ônibus bater em cheio numa mulher que corria em direção à parada. UM DOIS TRÊS QUATRO.

Não estava mais no ônibus. Estava deitada, parecia amarrada. Só mexia os olhos. Não sentia seu corpo. Estava num quarto, e não sabia se era o seu. Sua mente estava lenta, tudo tinha mudado. Pensava em coisas desconexas. Sabia que tinha que sair dali pra comprar pilhas e fazer tantas outras coisas. Lembrou daquele filme “Quero ser John Malkovich” e do portal. Devia estar noutra dimensão (dentro da minha própria mente). Seria possível? Ou será que estou ficando louca?

Foi então que, bem à sua frente, olhando-a fixamente, algo familiar: o relógio da cozinha. O seu relógio. O estranho é que ele tinha parado de funcionar de novo. Preciso de pilhas! E pra piorar tudo, o relógio estava torto na parede. Que aflição! UM DOIS TRÊS QUATRO. Alguém me ajude! Por favor, ponha pilhas neste relógio e faça-o ficar reto na parede. Será que ninguém se importa com este relógio torto? Não é possível!

Achou que chorava, mas não tinha certeza. Não tinha certeza de nada. Então ouviu um “Zuum”, e o tempo estagnou! UM DOIS TRÊS QUATRO. Ao longe, percebia umas vozes familiares misturadas a choros. Depois não ouviu mais nada. Apenas observou o relógio e sentiu todo o peso do ônibus dissolvendo no peso do tempo.

Por favor, os familiares de Lúcia me acompanhem, falou calmamente o médico. Todos já choravam antes mesmo de ouvir a notícia inevitável e que vinha estampada no rosto do doutor. Infelizmente, ela não resistiu aos ferimentos. O impacto do atropelamento foi violento demais. Não foi possível conter a hemorragia. Eu lamento.

A morte cerebral foi declarada às 12 horas e 34 minutos. Lúcia não arrumaria a gaveta das meias, não ligaria pra ninguém, não chegaria atrasada, nem pediria aumento, muito menos compraria pilhas. Alguém me ajude! Alguém arrume o relógio, por favor. Ninguém a ouviria mais. E o relógio continuaria torto. E o tempo, para ela, estagnado.

24 de agosto de 2012

Impressões


o problema era aquele vidro com as marcas de digitais. o problema eram aquelas marcas. aqueles dedos borrados. aquelas denúncias de um crime para o qual não existem culpados. aquelas manchas esbranquiçadas no vidro áspero de digitais irredutíveis; indiscutíveis. não seria capaz de perdoar. não seria eu forte o suficiente. não seria se não fosse, se não tentasse. escutei um pingo do outro lado da vidraça. o problema era aquele pingo; sua solidão. nem era chuva. era respingo e ácido. tentei abrir a janela emperrada sem sucesso. não resisti ao ver de perto os dedos. tentei vestir a luva e não serviu. talvez servisse em ti que esteve à minha porta outra noite. angústia abafada. síndrome da escuridão em contraste com as digitais engorduradas de poeira. o problema era aquela poeira. aqueles resíduos imperceptíveis. aquele resto de água chiando na chaleira. aquele chá que não será servido. a chama amarelada no fogão enferrujado do outro lado da parede. sem força, não vejo a chuva através da janela. mas posso sentir o cheiro suave de uma iminente formação de barro abaixo dos meus pés. um desejo de pisar esse chão úmido e deixar o lodo entranhar unhas e carne. apenas permitir tomar-me. o problema era aquele sapato apertado. aquele calo fazendo aniversário. ruptura e recomeço. o problema era um. era meu. o problema era a aquela janela. 

[fechada]

25 de junho de 2012

Cem anos de perdão


Nunca ninguém soube. Não me arrependo: ladrão de rosas e de pitangas tem cem anos de perdão. As pitangas, por exemplo, são elas mesmas que pedem para ser colhidas, em vez de amadurecer e morrer no galho, virgens.

Clarice Lispector
Do livro Aprendendo a viver

28 de maio de 2012

Os Famosos e os Duendes da Morte

Em 24 de abril de 2012 vi o show do Bob Dylan em Porto Alegre. Em alguns momentos fechava os olhos e ficava apenas ouvindo, viajando no que estava acontecendo. Sim, era mesmo o Dylan. Sim, os Duendes estavam à solta na capital gaúcha. Foi um momento histórico. Emocionante. Inesquecível. Poético. Aquele tipo de instante a ser congelado na memória, que sabemos que NUNCA mais irá acontecer.

"O tempo... você pode fazer muitas coisas para parecer que ele parou, 
mas, claro, você sabe, nada pode fazê-lo."

29 de março de 2012

Marilha

essa noite sonhei com o mar
nem era noite
era manhazinha
manhinha quase acordar

sonhei com uma mulher
que morava no mar
lá longe no mar grande 
maranhão

morava sem casa
flutuando
era e não era eu
dormindo acordada
no flutuar oscilante
de mar grande meu
mareu

nas ondas
eu não era mais
nem morava lá
nada ia

de súbito acordei
saí de casa molhada
pisando areia seca
salgada ao avesso
e atrasada de mar