24 de agosto de 2012

Impressões


o problema era aquele vidro com as marcas de digitais. o problema eram aquelas marcas. aqueles dedos borrados. aquelas denúncias de um crime para o qual não existem culpados. aquelas manchas esbranquiçadas no vidro áspero de digitais irredutíveis; indiscutíveis. não seria capaz de perdoar. não seria eu forte o suficiente. não seria se não fosse, se não tentasse. escutei um pingo do outro lado da vidraça. o problema era aquele pingo; sua solidão. nem era chuva. era respingo e ácido. tentei abrir a janela emperrada sem sucesso. não resisti ao ver de perto os dedos. tentei vestir a luva e não serviu. talvez servisse em ti que esteve à minha porta outra noite. angústia abafada. síndrome da escuridão em contraste com as digitais engorduradas de poeira. o problema era aquela poeira. aqueles resíduos imperceptíveis. aquele resto de água chiando na chaleira. aquele chá que não será servido. a chama amarelada no fogão enferrujado do outro lado da parede. sem força, não vejo a chuva através da janela. mas posso sentir o cheiro suave de uma iminente formação de barro abaixo dos meus pés. um desejo de pisar esse chão úmido e deixar o lodo entranhar unhas e carne. apenas permitir tomar-me. o problema era aquele sapato apertado. aquele calo fazendo aniversário. ruptura e recomeço. o problema era um. era meu. o problema era a aquela janela. 

[fechada]