26 de dezembro de 2013

enquanto houver alegria nos sapatos que ela pisar


são os sapatos dela que me comovem. são aqueles pares diferentes e coloridos que ela usava quando nos conhecemos. são aqueles saltos meio arranhados porque ela caiu naquela noite enquanto chorava. e quando nos encontramos naquela praça e eu achei que ninguém repararia nas minhas meias trocadas. são as carícias nos dedos vermelhos por culpa do sapato um pouco apertado que ela escolheu. são aqueles sapatos de verniz que combinam tanto com o olhar dela quando está a sorrir despreocupada. são apenas sapatos. velhos ou novos. de couro ou veludo. vermelhos ou verdes. são apenas sapatos. mas tão intensos. pisam o chão e percorrem caminhos. nunca passam em vão. voltam e ficam. se perdem e se encontram no recomeço. é verão e os sapatos dela me comovem.

24 de dezembro de 2013

Doralice


Entre as coisas boas que aconteceram nesse ano, está Doralice. A felina chegou aqui em casa e conquistou o coração de cada um. Depois de alguns meses da perda do nosso cãozinho Frederico, essa tigresa faceira, brincalhona, esperta e carinhosa veio trazer muita alegria ao nosso lar. Comprovando que adotar é tudo de bom!


GATOS

Os gatos são para se beber
com o olhar
bem devagar
de um jeito oblíquo felino
quando os gatos andam
fazem hiatos de veludo
na fazenda azul do ar

Os gatos são para se tocar
bem de leve
que se esgarçam de preguiça
carícia
em sussurros de luar

Os gatos têm alma
de silêncio tafetá

Roseana Murray


26 de novembro de 2013

3º Canoas Jazz


O 3º Canoas Jazz encerrou no domingo com um show muito especial. Ravi Coltrane foi espetacular. Um dos momentos em que dá orgulho de ser canoense. 


No sábado, eu já tinha curtido a passagem de som nesse clima bem natureza.





Eu, que participei de todos as edições até agora, desejo que venham muitas outras. Obrigada, Canoas. E parabéns aos organizadores desse evento. 

19 de novembro de 2013

Adélia Prado

Há poucos dias li o livro Bagagem, da Adélia Prado. Fiquei encantada com tamanha sensibilidade poética. O poema Leitura é pura emoção.

17 de novembro de 2013

Bagagem


“hoje estou velha como quero ficar
sem nenhuma estridência
dei os desejos todos por memória
e rasa xícara de chá”
Adélia Prado

pelo quarto inacabado. as paredes esperando as cores prometidas. um espelho renovado mostra-me algo. uma oração para todo o pouco em que acredito, mas que sempre me assusta. sinais de que nem tudo deve ser assim tão racional. a lâmpada que queima num momento inadequado. a presença felina inesperada. um sussurro, um miado. dizem que os gatos são seres predispostos a pressentir. um medo que se vai. outros que vingam de lágrimas após alguns versos. de adélia. de pistas. de exaustão. de trégua. de uma leitura. da quase reforma. do meu olhar sobre o que não costumo. da louvação de uma cor. do prado. o não-verde. o que não nasce não pode morrer.

16 de novembro de 2013

Astral Weeks

"desejo, como quem sente fome ou sede,
um caminho de areias margeado de boninas,
onde só cabem a bicicleta e seu dono.
desejo, com uma funda saudade
de homem ficado órfão pequenino,
um regaço e o acalanto, 
a amorosa tenaz de uns dedos
para um forte carinho em minha nuca.
brotam os matinhos depois da chuva,
brotam os desejos do corpo...”
Adélia Prado

agora todo dia é dia de pedalar. depois de muitos anos, não tinha a mínima noção de que ia curtir tanto pegar a bike e sair por aí. por aqui pelo bairro mesmo. entre minhas músicas e meus pensamentos. tudo tão egoisticamente meu.
não importam o cansaço do dia, a correria costumeira, o caos do trânsito, as dores e amores. uma hora pedalando e todo vento é a favor. e venta bastante.
a trilha sonora é fundamental. epitelial. muitos dias são de pedalar ouvindo Los Hermanos, cantando Além do que se vê, Todo carnaval tem seu fim ou, a mais circense de todas, Mais uma canção.
tem dia de pedalar ouvindo o Chico, no embalo de Tem mais samba, Amanhã ninguém sabe, Roda-viva, Samba e Amor ou Ela desatinou.
teve o dia de pedalar ouvindo Van Morrison com seu poético Astral Weeks. astral do bem. pensando no The way young lovers do.
tem dia de pedalar com a playlist no aleatório. aí é que a sorte me acompanha e as canções dão o tom das pedaladas. de Marisa Monte a Velvet Underground, de Vanguart a Bob Dylan, de Billie Holiday a Janis Joplin.
são as canções que me procuram e me encontram e eu mudo a marcha, o ritmo. descobrir novos prazeres diz muito sobre quem sempre fui. fugir da rotina criando outras novas até que deixem de ser rotinas e outras surjam e outros vícios invadam minha alma pelo útero. To be born again.

2 de novembro de 2013

Quase perfeita


A minha amada tem os olhos castanhos
e castanha pele em arrepios de doçura

A minha amada usa uns sapatos coloridos
e seus passos são de alegre rutilância

A minha amada sussurra um risinho mavioso
e balança com leveza as flores graciosas do vestido

A minha amada é perfeição
quase perfeita

Toda perfeição seria
se esquecesse o moço que anda a seu lado
e soubesse de minha existência
de meu amor legítimo

Se seus olhos, seus passos, seu balançar
estivessem em minha direção
e ao dormir em meus braços
acordasse eterna e somente minha

20 de outubro de 2013

permanente

o impulso pulsa
inevitável
talvez evitável
não fosse corrente
sanguíneo
impulsionado pelo ritmo
cardíaco
molestado pela falta
tardia
atento ao desejo
irreparável
ofuscado pela paz
costumeira
sem honra nem vestígio
tentador
o impulso reage
permanente
eu em mim
permaneço
ou pulso ou nada

10 de outubro de 2013

esperança oblíqua

o trem não vai parar
sabemos disso fingindo não saber
vamos todos para a mesma estação
numa viagem sem volta
sacolejando vagões adentro
rangendo, nós vamos
o caminho dos trilhos é concreto

exato

o trem da vida apenas segue
a humanidade é que descarrilou

20 de agosto de 2013

Do silêncio

Sobre as coisas não ditas
Palavras não nascidas
Germinando por dentro
Presas pelos poros
E por fora ressecadas

Sobre as bocas mudas que não mudam
E o mundo de verbos surdos
Desnudos de sinceridade
E a cidade sufocada que não respira
Porque a chuva se escondeu
Na falta do pingo
Como uma fala afônica
Na tônica de um vento findo

25 de julho de 2013

desnecessário


é preciso dormir tarde
é preciso ver a lua pálida
nadar um livro cheio
ler um rio vazio
e deixá-lo correr solitário
em sua profundeza
em sua umidade de rio
privacidade que navega sob a brisa
sob pontes por onde seus passos
nunca passarão deixando marcas
como fontes entre vãos

e nem mesmo a sua alma gélida
de poema não dormido
não necessário
nunca saberá

nada poderá te aquecer
é preciso acordar

29 de março de 2013

Miguel e os duendes da morte


o livro que tu nunca poderá ler estava lá há quase dois anos. como se não fosse para. como se tu quisesse poupar-me da emoção de. como se fosse preciso esperar o momento certo da leitura. como se houvesse. as páginas que nunca serão folheadas pelas tuas mãos pequenas. e eu toda lida, consumida de fora para dentro de mim que somos. eu que só vi o teu rosto num único sonho. imagino a dor de quem precisou acostumar-se a não. eu que ouço Bob Dylan, neste momento, quase como uma oração em teu nome. eu que sempre fui um pouco de ti. de nós. eu que não te conheci, mas sempre senti a tua falta dentro de mim que sou nós. que fui. que serei. eu que provavelmente não existiria se. eu que seguro a tua mão porque não tenho mais medo.

"Meus olhos estariam presos nos mesmos destinos
enquanto continuassem naquela cidade. 
Nada aconteceria. Nada acontecerá.
As plantações em volta definiam os meus limites.
Ninguém gritava. Em algum quarto fechado um
menino chorava baixinho sem saber por quê.
Talvez fosse eu para sempre longe de mim.
Em algum berço um recém-nascido dormiria
sem saber que o pior está por vir.
Talvez fôssemos nós num
 passado que nunca mais."

Ismael Caneppele

27 de março de 2013

Saudades do Verão (ou lamentos de outono)


Pegar a estrada para o mar é felicidade doce.
Arrumar a mala.
Lembrar que esqueceu algo.
Escolher a trilha sonora.
Cantar a trilha sonora feito louca.
Levar chocolate na viagem.
Comer chocolate derretido na viagem.
Parar para esticar as pernas.
Voltar para a estrada querendo chegar logo.
Passar o caminho criando boas expectativas.
Ter as expectativas superadas.
Cumprimentar o mar e o sol.
Agradecer pelo dia pintado de céu.
Fotografar tudo na lente e na memória.
Dar pausa na enxaqueca.

Ah, felicidade de mar.
De praia que está sempre lá.
De pedra que não sai do lugar.
De areia que vai e volta.
O sabonete naturalmente esfoliante.
O corpo à milanesa.

É sempre assim.
O mar é sempre o mesmo.
Alegria sempre igual de tudo de novo.
Tudo renovado do mesmo jeito.

Pegar a estrada para o mar é sempre assim.
Porque o mar também é rotina.
A rotina mais doce do ano.

14 de fevereiro de 2013

os mares que sonhei


um dia ainda vou morar na praia, um lugarejo assim bucólico, assim romântico. vou de mão dada com o meu bem viver pertinho da areia, do sol. lá onde o inverno não nos alcance. ainda vou caminhar vagarosa deixando a onda roubar um pouquinho de mim ao tocar meus pés. um dia, ainda que distante, vou passear à noite ao lado dele sentindo a maresia antes de ir para casa banhada de lua. depois dormir ouvindo o barulho lento e gostoso do mar a embalar nosso sono em concha.

a casa será bem rústica, com cheiro de madeira e cheia de cores. neste lar sempre haverá um aroma aconchegante vindo da cozinha. frutos do mar, frutos do amor. na vitrola ou no violão sempre aquelas velhas canções a nos embriagar. pela sala a fumaça do incenso inundará nossos sentidos. na porta do quarto colocarei uma cortina de miçangas verde-água. ela fará um tilintar dengoso que só silenciará quando meus passos já tiverem alcançado a cama.

é. um dia ainda vou morar na praia e abandonar o calendário. vou mergulhar em águas límpidas, lúcidas. vou transbordar em minhas transparências e viver o oceano. bem assim, aguando a alma diariamente. vou suavemente acordar sem pressa, dormir sem pressa, morrer sem pressa.