29 de março de 2013

Miguel e os duendes da morte


o livro que tu nunca poderá ler estava lá há quase dois anos. como se não fosse para. como se tu quisesse poupar-me da emoção de. como se fosse preciso esperar o momento certo da leitura. como se houvesse. as páginas que nunca serão folheadas pelas tuas mãos pequenas. e eu toda lida, consumida de fora para dentro de mim que somos. eu que só vi o teu rosto num único sonho. imagino a dor de quem precisou acostumar-se a não. eu que ouço Bob Dylan, neste momento, quase como uma oração em teu nome. eu que sempre fui um pouco de ti. de nós. eu que não te conheci, mas sempre senti a tua falta dentro de mim que sou nós. que fui. que serei. eu que provavelmente não existiria se. eu que seguro a tua mão porque não tenho mais medo.

"Meus olhos estariam presos nos mesmos destinos
enquanto continuassem naquela cidade. 
Nada aconteceria. Nada acontecerá.
As plantações em volta definiam os meus limites.
Ninguém gritava. Em algum quarto fechado um
menino chorava baixinho sem saber por quê.
Talvez fosse eu para sempre longe de mim.
Em algum berço um recém-nascido dormiria
sem saber que o pior está por vir.
Talvez fôssemos nós num
 passado que nunca mais."

Ismael Caneppele

27 de março de 2013

Saudades do Verão (ou lamentos de outono)


Pegar a estrada para o mar é felicidade doce.
Arrumar a mala.
Lembrar que esqueceu algo.
Escolher a trilha sonora.
Cantar a trilha sonora feito louca.
Levar chocolate na viagem.
Comer chocolate derretido na viagem.
Parar para esticar as pernas.
Voltar para a estrada querendo chegar logo.
Passar o caminho criando boas expectativas.
Ter as expectativas superadas.
Cumprimentar o mar e o sol.
Agradecer pelo dia pintado de céu.
Fotografar tudo na lente e na memória.
Dar pausa na enxaqueca.

Ah, felicidade de mar.
De praia que está sempre lá.
De pedra que não sai do lugar.
De areia que vai e volta.
O sabonete naturalmente esfoliante.
O corpo à milanesa.

É sempre assim.
O mar é sempre o mesmo.
Alegria sempre igual de tudo de novo.
Tudo renovado do mesmo jeito.

Pegar a estrada para o mar é sempre assim.
Porque o mar também é rotina.
A rotina mais doce do ano.