29 de março de 2013

Miguel e os duendes da morte


o livro que tu nunca poderá ler estava lá há quase dois anos. como se não fosse para. como se tu quisesse poupar-me da emoção de. como se fosse preciso esperar o momento certo da leitura. como se houvesse. as páginas que nunca serão folheadas pelas tuas mãos pequenas. e eu toda lida, consumida de fora para dentro de mim que somos. eu que só vi o teu rosto num único sonho. imagino a dor de quem precisou acostumar-se a não. eu que ouço Bob Dylan, neste momento, quase como uma oração em teu nome. eu que sempre fui um pouco de ti. de nós. eu que não te conheci, mas sempre senti a tua falta dentro de mim que sou nós. que fui. que serei. eu que provavelmente não existiria se. eu que seguro a tua mão porque não tenho mais medo.

"Meus olhos estariam presos nos mesmos destinos
enquanto continuassem naquela cidade. 
Nada aconteceria. Nada acontecerá.
As plantações em volta definiam os meus limites.
Ninguém gritava. Em algum quarto fechado um
menino chorava baixinho sem saber por quê.
Talvez fosse eu para sempre longe de mim.
Em algum berço um recém-nascido dormiria
sem saber que o pior está por vir.
Talvez fôssemos nós num
 passado que nunca mais."

Ismael Caneppele

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