3 de dezembro de 2014

não-instinto

Frida Kahlo

Não conheci o desejo de ser mãe-bicho-leoa. Não tive a vontade de carregar a gestação no meu ventre. Não quis saber em minhas entranhas como seria esse momento mágico e único de dar um filho à luz. Nada disso. Nenhum desses desejos eu vivi. Bernardo sempre soube. Aceitou que eu era ainda muito jovem, que um dia minha cabeça mudaria. Nunca mudou. Eu seguia meu não-instinto. Não veria minha vida duplicada num olhar de eterna dependência.
Naquela noite, Billie Holiday soava linda e melancólica no rádio. Eu adormecia carregada pela leveza de um Rivotril, sem nem saber se sonhava. Mas como uma fumaça que se dissipa, o efeito do remédio passou e despertei num sobressalto, o coração disparado. Pensei na carta de Bernardo e amarguei suas palavras datilografadas como herança para me culpar do aborto. Minha doença talvez seja esta acusação entranhada em meu íntimo para sempre. Ele se foi, levou consigo a certeza e me deixou só. Sem direito de resposta.

25 de novembro de 2014

tela da saudade

Pablo Picasso
é só mais uma tela
uma pintura do seu olhar perdido
o reflexo dos seus óculos
é o mesmo da arma que você usou
para partir

e você que me fez tantos poemas
que fez de mim poesia em sua boca
hoje não está aqui para compreender
a minha saudade

24 de novembro de 2014

tempestade


alguma coisa acontece no teu mundo
quando a tempestade bate à tua porta
o tempo desobedece os ponteiros
a noite é a revolta dos ventos

não adianta lutar
aceita a tempestade em teus braços
dança com as nuvens enquanto a chuva cai
água que molha lava o tempo, leva o medo

nessa sinfonia da natureza tudo se acomoda
o mar descansa num balanço sonolento
a tempestade deságua noutras moradas

abriga-te, então, no frescor da noite
e contempla a beleza das estrelas
que te acompanham silenciosas

23 de novembro de 2014

a carta


seis meses se passaram desde que o Bernardo... sabe? fez o que fez. ainda tenho pesadelo. acordo no meio da noite suando. então eu viro pro lado e pego a carta, sabe? a carta que ele deixou pra me atormentar e que eu ainda guardo do lado da cama, numa gaveta. e eu leio de novo e choro de novo e tenho raiva de novo e também tenho uma saudade... minha cabeça dói. depois eu dobro o papel que já perdeu a cor, cheio de vincos, sabe como é? já imaginou o que é ler a mesma carta todos os dias? sentir o mesmo vazio todos os dias e não saber quando isso tudo vai passar? é uma mistura de medo, de ódio, de alívio, de culpa, de tudo um pouco. e a minha cabeça dói. eu não preciso mais ler a carta dele pra saber tudo o que tem escrito ali, mesmo assim eu leio. mas nem precisava, sabe? ele escreveu o que queria. eu abro a carta mais uma vez e aquela letra dele, aquele jeito de escrever de quem acha que sabe tudo. aquela letra é uma faca, entende? como eu pude me enganar assim? se bem que nós fomos apaixonados de verdade. sim. nós nos amamos de verdade. ele foi meu amor e sempre vai ser. era uma doença, isso sim. e eu não fiz nada pra ajudar. nada. sabe o que é nada? e naquele dia em que eu fui chamada no nosso apartamento, quando ele se... quando ele se foi, eu senti um pavor, um enjoo, mas também senti um tanto de liberdade, de plenitude. pelo menos até encontrar esse pedaço de papel. foi o policial que me entregou a carta, lembra? desde aquele dia eu sequer consegui pintar outra tela. pelo menos nada que me desse satisfação. mas amanhã eu vou jogar essa carta no lixo. o Bernardo sempre teve um tipo de poder sobre mim, algo que me prende a ele de um jeito, sabe?

17 de novembro de 2014

Viagem ao interior

Violeta Parra
agora ela não mora mais 
naquele apartamento
vive dentro de si mesma
só com seus sentimentos
expulsa o que a devora inteira
e em seu interior se demora

8 de novembro de 2014

José e Pilar

"é porque o tempo aperta, o tempo aperta,
e quando o tempo aperta, há um sentimento de urgência que...
não é porque uma pessoa vá salvar o mundo com aquilo
 que escreve, também não sabe se vai salvar-se a si mesma,
 simplesmente tem de fazer aquilo que tem de fazer." 
Saramago 


ele dizia que "o mal da morte é que tu estavas e agora já não estás, isso é que é o pior de tudo, ter estado e já não estar." pois pra mim ele sempre vai estar. um dos livros mais lindos que já li.

30 de setembro de 2014

Chega de preconceito


Não tenho costume de escrever sobre o cotidiano aqui no blog, mas é que o cotidiano está me chamando para umas reflexões. Realmente é inaceitável que o preconceito continue dando as caras e incomodando a vida de tanta gente que não quer incomodar ninguém, gente que só quer viver em paz. No país dos felicianos, dos fidelix, dos everaldos somos obrigados a conviver diariamente com a ignorância. Somos mesmo? Talvez não. Tenho visto muitas manifestações contrárias à homofobia e isso é bom. Melhor seria se ela não existisse, mas ela está aí e precisamos combatê-la assim como precisamos combater todo tipo de preconceito.
Enquanto cidadã e educadora, uma das minhas missões mais importantes na sala de aula é conscientizar. Comecei a desenvolver, com o sexto ano, um projeto chamado Chega de Preconceito. Uma das atividades foi assistir com os alunos ao filme Hoje eu Quero Voltar Sozinho. Uma linda história de amor que exigiu dos estudantes uma libertação dos preconceitos, uma mente mais aberta, um olhar mais sensível. Resultado: eles simplesmente amaram o filme, com direito a aplausos no final.


Ficaram cheios de questionamentos. Conversamos muito sobre as atitudes preconceituosas que carregamos desde a infância porque aprendemos, muitas vezes, com os nossos pais que aprenderam com os pais deles e que nem nos dávamos conta que era preconceito. O objetivo era fazê-los compreender que alguém precisa quebrar este círculo vicioso. Na escola, esse papel é principalmente do professor. Em casa, passou a ser de cada um deles. Eles deverão ser os responsáveis pelo início de uma mudança em suas próprias famílias toda vez que ouvirem expressões como boiolinha, bichinha, vadia, macaco, retardado e tantas outras.
Eles precisam compreender, por exemplo, que meninas e meninos podem usar rosa. Que meninas e meninos podem brincar de carrinho. Que mulheres e homens podem trabalhar, ajudar nas tarefas domésticas e ainda estudar. Que a homofobia é feia, mata e deve ser considerada crime. Que é o caráter que faz a pessoa. Que educação, amor e respeito são a base de uma sociedade menos patética, mais justa, mais humana, mais feliz. E que viver num mundo melhor depende de todos nós.

22 de setembro de 2014

caminho

a melhor saída
nunca foi entender-me
nem eu chego a tanto

como ponto de partida
tente enlouquecer-me

31 de agosto de 2014

adeus, agosto


não posso compreender
quem não se alegra com o verão
com o colorido das flores
o perfume do outono
quem não sorri ao ver um cão feliz
de barriga pra cima
ou quem não sabe aproveitar
um domingo preguiçoso de pijama

não posso compreender
quem não aprende com o tempo
com os erros
e nunca quer ir além
quem sente prazer em magoar
e não gosta de si mesmo

prefiro não compreender
o que não é do bem
o que não vem do amor

25 de agosto de 2014

you put a spell on me

das várias tentativas de escrever aquele poema. aqueles versos em que me exponho. em que admito que me entrego enquanto você se esconde se cala e me deixa no vazio. o teu perfume eu já conheço, você disse assim sorrindo uma vez faz muito tempo. pisco. e tudo volta à minha mente. seus olhos de mar avesso me encontram como naquelas madrugadas em que fomos íntimos. pisco. e me impressiona o fato de nunca termos nos beijado de verdade. o teu gosto eu já conheço. mas sei tão pouco. como naquele bar aquela vez em que nos embebedamos e eu perdi a minha bolsa. quando queimamos juntos os nossos cigarros. aquela bolsa verde lembra? foi você quem me ajudou a procurar. e eu gostei do seu jeito de me proteger. pisco. e lembro de quando me falou dos seus livros e me levou até a sua casa e passamos a noite acordados conversando. pisco. eu bem que tento, mas nunca consigo. não posso mais despertar desse feitiço.

24 de agosto de 2014

quando o amor não basta


acabou como muitas coisas na vida acabam. sem paixão sem emoção sem poesia. apenas lembranças ou a falta delas. acabou como se acaba de ler um livro que já estava ficando triste demais. como uma música que muito já se dançou. acabou enquanto ainda havia respeito. enquanto ainda havia amor. enquanto ainda não podia doer demasiado. acabou com um suspiro lento e demorado.

20 de junho de 2014

o mundo é um moinho

porque o mundo é um moinho
porque faz tempo não encaro
o espelho e vez em quando
é necessidade grande
porque tudo começa
pra terminar
e finda em esperança
de recomeço
porque tudo é ciclo
imensidão a girar
sonhos triturados
ilusões reduzidas
almas torturadas
e não é possível seguir
sem uma boa reflexão

8 de junho de 2014

Fernandão: ídolo eterno


A morte do Fernandão é daqueles golpes brutais que nos fazem refletir profundamente. O que realmente vale a pena nessa vida breve? Que tempo fugaz esse que passamos aqui sem qualquer ideia do que nos aguarda ali na esquina ou mesmo dentro de casa. Num acidente de carro, num assalto, numa bala perdida ou num escorregão bobo.

Passei o fim de semana ouvindo a cobertura do velório desse ídolo querido na Rádio Gaúcha. Inclusive fui ao mercado com o fone de ouvido porque simplesmente não conseguia me desligar. Também queria me despedir. Quando cheguei ao caixa, percebi uma certa confusão ao lado e tirei um dos fones para entender o que estava acontecendo. Havia uma mulher surtada, sendo arrogante, brigando com todo mundo, chamando o gerente porque não tinha ninguém pra empacotar suas compras. Aquilo me deu um nó no estômago, um aperto no coração já machucado. Entristece ver a que ponto chegamos. E para quê? Por que deixamos tantas coisas pequenas tomarem o nosso tempo? Um tempo precioso, incalculável, que nunca volta. Só se esvai.

O capitão nos deixou cedo demais, mas o ser humano que ele foi nunca será esquecido. E a tristeza dessa lacuna tem que servir de aprendizado. Precisamos, mais do que nunca, nessa sociedade doente, aprender a dar valor ao que realmente importa. A gastar o nosso tempo com o que realmente nos faz feliz. E espalhar o bem. Sempre. Porque tudo que fazemos de bom não morre jamais. 

27 de maio de 2014

Poeira


essa tua postura covarde te leva a lugar nenhum. esse teu medo de seguir em frente. de desfazer o que está feito. como naquela noite em que os vizinhos puderam ouvir os teus gritos. aquilo foi um ato de coragem. porque até os teus gritos são bonitos. têm um tom suave e dramático e poético. tons obscuros.

e a maneira como seguras a garrafa servindo o vinho aos poucos para que dure mais. esvazia logo essas lágrimas. e o teu choro abafado e a dor de cabeça que certamente te acompanhará quando chegar o sol. ou a chuva.

adiar a dor é como adiar a vida. é como deixá-la estagnada. acomodada de pijamas enquanto a noite transborda estrelas. é como manter um livro fechado por muito tempo apenas imaginando toda a emoção que há para ser lida. mesmo que já se saiba. é sempre um jeito diferente de ler. e adiar a leitura é morrer um pouco todo dia. sufocado nas tuas prateleiras empoeiradas.

29 de abril de 2014

Desatenção

é preciso entregar-se
de um todo
é preciso encantar
todo dia
é preciso arder
como fogo
é preciso manter
a sintonia
é preciso empatar
o jogo
é preciso viver
a poesia

que isso é o amor
o resto é desatenção

19 de abril de 2014

"Tem dias que a vida é um ato de coragem..."

queria que aquele dia chegasse logo. não! queria que ele acabasse logo e com boas notícias. queria tanto que antecipou sua ida à clínica. o exame ficara pronto um dia antes. a moça demorava para entregar o envelope que poderia mudar a sua vida dali em diante. tudo passaria a ter um novo significado. um significado de morte? haveria de ser a hora? e como ficariam os familiares? como seriam os próximos dias e meses? quanto tempo restaria? tanta aflição a ser multiplicada ou diluída em poucos minutos. minutos que mais eram eternidade até estar com o envelope em mãos. o envelope branco com os resultados. 

tu não vais morrer agora. não com este diagnóstico. não com este tipo de câncer. não hoje. e não adianta todo esse cuidado. a morte é a única e verdadeira companheira eterna. mas ela ainda não quer a tua companhia. não hoje. podes ir para o fim daquela fila.

23 de fevereiro de 2014

banho de cura

meu pai acreditava que todos os anos
se devia fazer uma cura 
de banhos de mar...

Clarice Lispector



eu começo por onde a estrada vai. e a estrada de novo me levou para o mar. o verde e o Rosa. o mar que tem esse poder de cura. e cada vez que piso a areia é reencontro. é ser regado. carregado de luz. renascido. e o meu verde fervilhante se fortalece. espuma prata e sal.

de novo choveu. e molhou. e doeu a chuva que transbordou e mexeu o mar que com seu pranto suplicou mais um mergulho. um último banho de cura.

e eu apenas obedeço.

17 de fevereiro de 2014

matizes


o resto era o verde úmido subindo em mim pelas minhas raízes incógnitas...
Clarice Lispector