25 de novembro de 2014

tela da saudade

Pablo Picasso
é só mais uma tela
uma pintura do seu olhar perdido
o reflexo dos seus óculos
é o mesmo da arma que você usou

e você que me fez tantos poemas
que fez de mim poesia em sua boca
hoje não está aqui para compreender
a minha saudade

24 de novembro de 2014

tempestade


alguma coisa acontece no teu mundo
quando a tempestade bate à tua porta
o tempo desobedece os ponteiros
a noite é a revolta dos ventos

não adianta lutar
aceita a tempestade em teus braços
dança com as nuvens enquanto a chuva cai
água que molha lava o tempo, leva o medo

nessa sinfonia da natureza tudo se acomoda
o mar descansa num balanço sonolento
a tempestade deságua noutras moradas

abriga-te, então, no frescor da noite
e contempla a beleza das estrelas
que te acompanham silenciosas

23 de novembro de 2014

a carta


seis meses se passaram desde que o Bernardo... sabe? fez o que fez. ainda tenho pesadelo. acordo no meio da noite suando. então eu viro pro lado e pego a carta, sabe? a carta que ele deixou pra me atormentar e que eu ainda guardo do lado da cama, numa gaveta. e eu leio de novo e choro de novo e tenho raiva de novo e também tenho uma saudade... minha cabeça dói. depois eu dobro o papel que já perdeu a cor, cheio de vincos, sabe como é? já imaginou o que é ler a mesma carta todos os dias? sentir o mesmo vazio todos os dias e não saber quando isso tudo vai passar? é uma mistura de medo, de ódio, de alívio, de culpa, de tudo um pouco. e a minha cabeça dói. eu não preciso mais ler a carta dele pra saber tudo o que tem escrito ali, mesmo assim eu leio. mas nem precisava, sabe? ele escreveu o que queria. eu abro a carta mais uma vez e aquela letra dele, aquele jeito de escrever de quem acha que sabe tudo. aquela letra é uma faca, entende? como eu pude me enganar assim? se bem que nós fomos apaixonados de verdade. sim. nós nos amamos de verdade. ele foi meu amor e sempre vai ser. era uma doença, isso sim. e eu não fiz nada pra ajudar. nada. sabe o que é nada? e naquele dia em que eu fui chamada no nosso apartamento, quando ele se... quando ele se foi, eu senti um pavor, um enjoo, mas também senti um tanto de liberdade, de plenitude. pelo menos até encontrar esse pedaço de papel. foi o policial que me entregou a carta, lembra? desde aquele dia eu sequer consegui pintar outra tela. pelo menos nada que me desse satisfação. mas amanhã eu vou jogar essa carta no lixo. o Bernardo sempre teve um tipo de poder sobre mim, algo que me prende a ele de um jeito, sabe?

17 de novembro de 2014

Viagem ao interior

Violeta Parra
agora ela não mora mais 
naquele apartamento
vive dentro de si mesma
só com seus sentimentos
expulsa o que a devora inteira
e em seu interior se demora

8 de novembro de 2014

José e Pilar

"é porque o tempo aperta, o tempo aperta,
e quando o tempo aperta, há um sentimento de urgência que...
não é porque uma pessoa vá salvar o mundo com aquilo
 que escreve, também não sabe se vai salvar-se a si mesma,
 simplesmente tem de fazer aquilo que tem de fazer." 
Saramago 


ele dizia que "o mal da morte é que tu estavas e agora já não estás, isso é que é o pior de tudo, ter estado e já não estar." pois pra mim ele sempre vai estar. um dos livros mais lindos que já li.