23 de novembro de 2014

a carta


seis meses se passaram desde que o Bernardo... sabe? fez o que fez. ainda tenho pesadelo. acordo no meio da noite suando. então eu viro pro lado e pego a carta, sabe? a carta que ele deixou pra me atormentar e que eu ainda guardo do lado da cama, numa gaveta. e eu leio de novo e choro de novo e tenho raiva de novo e também tenho uma saudade... minha cabeça dói. depois eu dobro o papel que já perdeu a cor, cheio de vincos, sabe como é? já imaginou o que é ler a mesma carta todos os dias? sentir o mesmo vazio todos os dias e não saber quando isso tudo vai passar? é uma mistura de medo, de ódio, de alívio, de culpa, de tudo um pouco. e a minha cabeça dói. eu não preciso mais ler a carta dele pra saber tudo o que tem escrito ali, mesmo assim eu leio. mas nem precisava, sabe? ele escreveu o que queria. eu abro a carta mais uma vez e aquela letra dele, aquele jeito de escrever de quem acha que sabe tudo. aquela letra é uma faca, entende? como eu pude me enganar assim? se bem que nós fomos apaixonados de verdade. sim. nós nos amamos de verdade. ele foi meu amor e sempre vai ser. era uma doença, isso sim. e eu não fiz nada pra ajudar. nada. sabe o que é nada? e naquele dia em que eu fui chamada no nosso apartamento, quando ele se... quando ele se foi, eu senti um pavor, um enjoo, mas também senti um tanto de liberdade, de plenitude. pelo menos até encontrar esse pedaço de papel. foi o policial que me entregou a carta, lembra? desde aquele dia eu sequer consegui pintar outra tela. pelo menos nada que me desse satisfação. mas amanhã eu vou jogar essa carta no lixo. o Bernardo sempre teve um tipo de poder sobre mim, algo que me prende a ele de um jeito, sabe?

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