3 de dezembro de 2014

não-instinto

Frida Kahlo

Não conheci o desejo de ser mãe-bicho-leoa. Não tive a vontade de carregar a gestação no meu ventre. Não quis saber em minhas entranhas como seria esse momento mágico e único de dar um filho à luz. Nada disso. Nenhum desses desejos eu vivi. Bernardo sempre soube. Aceitou que eu era ainda muito jovem, que um dia minha cabeça mudaria. Nunca mudou. Eu seguia meu não-instinto. Não veria minha vida duplicada num olhar de eterna dependência.
Naquela noite, Billie Holiday soava linda e melancólica no rádio. Eu adormecia carregada pela leveza de um Rivotril, sem nem saber se sonhava. Mas como uma fumaça que se dissipa, o efeito do remédio passou e despertei num sobressalto, o coração disparado. Pensei na carta de Bernardo e amarguei suas palavras datilografadas como herança para me culpar do aborto. Minha doença talvez seja esta acusação entranhada em meu íntimo para sempre. Ele se foi, levou consigo a certeza e me deixou só. Sem direito de resposta.

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