20 de novembro de 2015

Sete a um

Não lembro direito o mês, mas foi no início de 2014 que a família da Catarina se mudou para o barraco ao lado da nossa casa. Num terreno com mato pelas canelas e barro vermelho em dia de chuva, o casebre de três cômodos mal se sustentava. A Catarina foi viver ali com a mãe, o padrasto e dois irmãos menores.

Naquele lugar nada se sustentava. Depois de um tempo, o padrasto foi embora. Na mesma época em que a mãe da Catarina ficou grávida. Na mesma época em que a Catarina começou a levar uma surra por dia. Ora a Catarina não tinha limpado a casa direito. Ora tinha deixado o feijão queimar. Ou ainda não tinha lavado a louça, a roupa, a bunda dos irmãos.

Na segunda-feira, a Catarina não saiu às sete e meia para ir à escola como de costume. Nem no outro dia. Em casa, eu espiava pela janela tentando adivinhá-la. Cheguei a desejar ouvir a gritaria da mulher só para ter certeza de que a menina estava ali. Nas noites que seguiram, escutou-se todo o tipo de ruído. As vozes da mãe e do novo namorado, as garrafas batendo, um funk tocando na rádio, o choro das crianças.

Acho que demorou uma semana para a Catarina dar sinal de vida. Então na outra manhã, ela saiu pela porta na hora de sempre. Fomos juntas para o colégio caminhando bem devagar. Não falei nada, mas ainda dava para ver o roxo embaixo do olho direito e as marcas nos seus braços magricelos. Na hora do recreio dividimos o lanche enquanto ela contava como tinha sido passar uma semana na casa da vó que mora na praia. Tanto tempo na praia e nenhum indício do sol de outono na sua pele transparente.

Em seguida chegou a época da Copa do Mundo. Impossível esquecer aquele mês. Todo dia de jogo do Brasil era dia da Catarina levar uma sova. Até que ela tentou mudar de tática. Se acostumou a fugir de casa antes da bola rolar e só voltava ao apagar das luzes. Mas não tinha jogo fácil. Era aí que a camaçada pegava a valer. A mãe nem se dava mais o trabalho de esconder a filha e os sinais da violência no seu corpo delicado.

A competição já ia avançada. Era a última semana de jogos quando consegui convencer meus pais a deixar a Catarina assistir à semifinal na nossa casa. Ela fugiu do barraco cedo e ficou perambulando até a hora da partida. Entrou pela nossa porta dos fundos. Sentada ali naquele sofá, bebendo um copo de limonada e comendo pipoca, Catarina não estava nem aí para a surra que o Brasil levava da Alemanha.

1 de novembro de 2015

sempre teremos o rosa

"the night is cold and I'm so alone
i'd give my soul just to call you my own
got a moon above me
but no one to love me
lover man, oh, where can you be?"


como aquele jazz que escutamos tentando paralisar o tempo, foi no improviso que nos permitimos o encontro. de loucura de doces aventuras de um certo amor por que não? não falamos, não deixamos que a palavra nos defina, dispensamos a semântica. apenas sentimos. o que nos une é sinestesia fugacidade pintura poesia. como o teu olhar de mar que me suga e me leva ao mergulho mais intenso. como se me afogar fosse morrer em paz. como se a terra fosse toda feita areia doçura verde. como se enfrentar o vento ao teu lado fosse divertido. escalar cada montanha, trilhar cada passo e deixar a natureza nos surpreender em plenitude. como quando rimos das crianças que brincavam nas pedras pelas quais passamos com tanto cuidado. como quando admiramos o casal que levava a cabra para a beira da praia. como quando compramos na peixaria do davi e saboreamos cada nova história. como quando nos perdemos na estrada. e cada detalhe daquela hospedagem tão conforto. doce aconchego oceânico. mosaico mandala luz de vela incenso jantar vinho billie poema pijama beijo de chocolate e o teu olhar. esse olhar de mar em dia de sol. contigo não tem tempo ruim. é perfeição que nos une. é realidade que nos separa. equilíbrio paradoxal. como explicar o que não há? como explicar o que palavra nenhuma é capaz de captar nas linhas do nosso mapa múndi? como explicar a cartografia minuciosa dos nossos corpos na penumbra? não há o que explicar não há o que definir não há o que planejar além do presente. do presente que é saber-te aqui.

20 de outubro de 2015

felicidade clandestina


a noite vem somos leitura
a desvendar além das ondas
linhas tecidas em carinho
telas doces ao vento

a noite vem somos pureza
alma leve emoção suave
mar de frio na barriga
 verde íris no horizonte

a noite vem somos ternura
doçura perfeita areia fina
oceano signo de afinidade
domingo gêmeos no tempo

a noite vem somos leveza
beleza rara a harmonizar
teu sorriso com meu eu
verso vivo em melodia

a noite vai fomos ventura
pura felicidade clandestina
destinada a escorrer efêmera
líquida poesia em mar oblíquo

4 de outubro de 2015

efêmera


“fosse certo eu temperava e coloria a nossa vida
se é mera distração, por que não se iluminar
inegável atração que faz meu corpo mais celeste...”
alecrim – musa híbrida

porque sinto algo novo como toda vez que afundo os pés na areia fina da praia e tento segurá-la com os dedos. areia quente que me escapa se rindo se espalhando efêmera. algo totalmente fresco como quando estática em frente ao mar me espelho me entrego faceira e me deixo ficar. algo novo como quando mergulho e me pergunto se mereço mesmo tudo assim tão oceânico tão poético tanto verde. eu que só sei viver de emoção leveza mar arrepio lírico me descuido um pouco mais e danço na areia quente que me escapa se rindo se espalhando efêmera.

19 de julho de 2015

dos que têm fome

eu gosto dos que têm fome dos que morrem de vontade tocava no rádio e eu cantava junto num desespero de identificação pensei no quanto essas palavras têm a ver comigo e com minha alma perturbada desde o dia em que te conheci e pra piorar ontem tu chegaste na minha porta chorando e tive ganas de bater na tua cara e te chamar de filho da puta e te mandar embora quase esqueço que cinco minutos depois estávamos rolando no chão sem tempo nem de tirar a roupa e quase esqueço dos meus joelhos vermelhos hoje pela manhã quando acordei e tu já tinhas saído sumido pra sempre de novo e eu te odeio pra sempre porque tu és assim tão livre tão cheio de vida de fome de vontade tão tudo que eu queria ser e não consigo

e digo pra mim mesma vendo meu reflexo no vidro empoeirado dessa janela aberta de onde ainda procuro teu rastro filho da puta por que fui me apaixonar assim por que é que eu tenho que gostar tão rápido de alguém por que eu não aprendo nunca e me pego fazendo o café da tua marca preferida e este café desce amargo enquanto um mosquito pousa no meu ombro e eu deixo ele me picar porque sei que sou alérgica e ele vai deixar uma marca não o mato porque sei que tem fome e eu gosto dos que têm fome e ainda gosto de ficar observando ele me picar

tenho vontade de pegar o telefone e desesperadamente saber de ti quero dizer que nunca mais apareças na minha frente que aproveites a tua liberdade e que não te comprometas nunca com ninguém porque ninguém merece sentir o que estou sentindo e seguro o telefone olhando o teu nome e decido que nunca mais vou me apaixonar na vida não importa o que aconteça vou fechar meu coração e te odiar pra sempre porque me machucaste quando naquela tarde disseste que me amava e eu queria dizer que nunca te amei que quero que tu evapores de vez da minha vida e vou escrever que nunca mais batas à minha porta porque nunca mais vou abrir e antes de começar a digitar chega uma mensagem esse filho da puta tem coragem de me escrever meu bem tô na padaria vou levar sonho de creme teu preferido faz café e me espera pelada na cama

25 de junho de 2015

insustituible


mientras el universo conspira
el aire alimenta el fuego
el fuego se propaga
llega a todas las partes
y encuentra el tiempo
de contar los días
de planear el reencuentro
insustituible
de los cuerpos y las lenguas 

2 de maio de 2015

saudades

Steve Hanks
saudades ela tem do mar
o verde nascendo sob seus pés
a vista embaçando no horizonte
a carícia ventando em seus cabelos
o calor acolhendo a alma

saudades ela tem do mar
que na distância chora alto
e com a chuva ela adormece  
ouvindo os lamentos do mar
que sente saudades dela

10 de fevereiro de 2015

26 de janeiro de 2015

dança da solidão

nunca uma certeza doeu 
tanto até que nos acostumemos
à dança da solidão parece que será
assim mesmo no compasso de uma
doce melodia que um dia precisou
terminar tudo no tempo certo do
amor nada nunca terá sido em
vão nem essa dança