7 de outubro de 2016

adeus você


tem aquele pedaço do dia quando o sol quer ir embora e a noite vem se acomodando no horizonte. aquele rasgo de céu que não aquece nem ilumina. aquele sussurro de vento a imitar as tuas palavras. não vai ter próxima vez ele disse cirurgicamente como quem extrai um siso que começa a incomodar. como quem calcula fórmulas. como se fosse possível ser racional no (des)amor. ele não soube fazer diferente. e aceito

tem aquele mar de memórias que navegam entre os filmes que (não) vimos as músicas que (não) dançamos a poesia que (não) sentimos. tudo volta num fluxo peito adentro. mergulho em ondas no teu sorriso e aceito a pureza do nosso tempo

tem aquele último fio de luz
antes do anoitecer
hora de dizer (a)deus
agradecer a beleza do amor
transformar a dor em verso
te libertar de mim
deixar ir
e ainda ter pra sempre

tem aquele sol brilhando de novo

20 de setembro de 2016

Sexo por correspondência

penso em escrever para ele uma carta. nada de mensagens, telefonemas, whatsapp. uma carta escrita à mão em papel reciclado. eu sei o endereço dele. tinha uma conta em cima da pia da cozinha. a mesma pia onde na noite anterior ele tinha me apoiado e me segurado com força antes de meter o pau por trás sem piedade. prendia meus braços nas minhas costas e mandava ver. e quanto mais eu dizia que estava doendo com mais força ele metia.

acaricio o papel antes de começar a escrever. sinto seu cheiro. esfrego a caneta nos lábios e a enfio na boca engolindo a tampa. minhas mãos descem até meus seios e me arrepio em tons explícitos nos poros. deslizo a ponta da caneta sobre as linhas frágeis da folha que fica marcada pelo verso com a força da minha mão direita.

ao mesmo tempo em que minha mão esquerda encontra o calor úmido no meio das minhas pernas. o som da caneta penetrando o papel se mistura aos meus gemidos abafados. minhas mãos escrevem poesia com safadeza. não quero parar. não posso cessar o ritmo até que tudo esteja dito até que tudo até que até.

carta pronta quase pronta. dobro a folha com a mão direita e a coloco no envelope com a ajuda dos dentes e da língua. fecho com a mão esquerda ainda molhada. amanhã às dez eu passo no correio.

27 de julho de 2016

sua estupidez


a chuva bate forte
na janela do quarto
molha o vento que sopra
ensopando infinito
enquanto a sua estupidez
não lhe deixa ver
o óbvio
se não era pra ser
nem destino nem os astros
nem nada do que foi
se não era pra ser agora
ou nunca será
se era
maresia levou
deixou afogado o peito
barco naufragado
eito sem eira nem beira
sem onda nem onde
um queira ou não queira
só mais um nó desfeito
de nós dois

27 de junho de 2016

é doce morrer no mar

o tempo era só um instante marina abriu a janela do quarto sem forças o dia amanhecera mais cinza do que gostaria a verdade é que desejou que aquele dia não acontecesse queria não mais acordar não mais precisar fingir bom dia para o resto do mundo

observou o peso das nuvens deslocadas no céu de abril tudo tão fora de ordem não tinha certeza da hora ou do dia da semana se devia estar no trabalho pouco importava um instante e tudo estancaria

devia estar de frente pro mar se visse o mar se sentisse o cheiro das ondas se seus pés tocassem a areia quente e o vento dançasse sobre seus ombros quem sabe como se a dor pudesse ser curada a sal de um jeito ou de outro seria doce mergulhar deixar-se ir

caminhou pelo apartamento recém comprado e para quê seria rápido mergulhar do décimo terceiro andar jogar-se e deixar na estante os livros que dormiam não mais obrigações não mais aquele vaso horroroso com flores artificiais presente da mãe e por isso não tinha coragem de jogar no lixo não mais o medo seria forte uma vez na vida

três flores de tecido lilás
enchimento de algodão
caule de palito
mau gosto, até parece que não me conhece
folhas de feltro verde-bandeira
fiapos de palha imitando o quê
enfeite de plástico transparente
querendo ser
um diamante
até parece


caída no chão a visão restrita à mesinha no centro da sala marina não viu o mar seu último mergulho foi ali mesmo num instante com o frasco de comprimidos quase vazio na mão os olhos quase vazios fixos nas flores de mentira que mau gosto morrer numa manhã de abril

26 de fevereiro de 2016

menor a noite


pulou janela entreaberta
menor a noite que o sonho dela
saiu com vestido de ficar em casa
debruçado em seu rosto o céu quis saber
"aonde vai"
ela devolveu riso leve feito flor
passearam em seus olhos
todas as estrelas
andou sob lua âmbar
tão cheia de magia tão sua
"aonde vai" 
quis saber a lua
respiração suspensa
peito adentro o silêncio recuou
ela então sussurrou segredo
"vou longe vou
ser onda no horizonte"
e seguiu dançando melodia inventada
com vestido de ficar em casa
costurando a noite a estrada afora

13 de fevereiro de 2016

solidão é lava


a tempestade que nos separa é a mesma que vela nosso sono onde somos livres onde estamos juntos sem querer despertar

14 de janeiro de 2016

notas sobre navegação


não se explica euforia medo efêmero eterno meu peito marítimo ritmo marinho navegando em tua direção onda de clichês espuma de emoção bailando leve entre estes versos talvez ele ainda não saiba confesso porque não sei esconder ele esteve em meus sonhos visitou-me há tempos talvez ele não lembre mas foi numa madrugada gelada encontrou-me com frio e trouxe tanto calor amor poesia lua crescente ascendente em nós magia mar melodia nada explica mas insisto porque sinto porque sonho porque vivo o instante e não sei ser diferente só sei entregar-me ao íntimo ao fluxo não importa como só sei nadar navegar teu olhar profundo castanho universo teu sorriso marfim minha ruína onde me afogo e morro plena

9 de janeiro de 2016

dia sete

Leila Proença

sete número de sorte
sete dias ao norte
sete ondas a soluçar

sol navega teu sorriso
carrega reflete outro verso
em meus olhos o sal

sete conchas na areia
sete saudades borbadas
sete nuvens no varal

em teus lábios perdição
perfeição flutua desliza
tanto dança a brisa
vai voa avisa

é de se entregar

nem carece entregue estou
sou de verde de alma de par

nem tem jeito
refeito o peito repleto o feito
sete mares (des)vendar