27 de junho de 2016

é doce morrer no mar

o tempo era só um instante marina abriu a janela do quarto sem forças o dia amanhecera mais cinza do que gostaria a verdade é que desejou que aquele dia não acontecesse queria não mais acordar não mais precisar fingir bom dia para o resto do mundo

observou o peso das nuvens deslocadas no céu de abril tudo tão fora de ordem não tinha certeza da hora ou do dia da semana se devia estar no trabalho pouco importava um instante e tudo estancaria

devia estar de frente pro mar se visse o mar se sentisse o cheiro das ondas se seus pés tocassem a areia quente e o vento dançasse sobre seus ombros quem sabe como se a dor pudesse ser curada a sal de um jeito ou de outro seria doce mergulhar deixar-se ir

caminhou pelo apartamento recém comprado e para quê seria rápido mergulhar do décimo terceiro andar jogar-se e deixar na estante os livros que dormiam não mais obrigações não mais aquele vaso horroroso com flores artificiais presente da mãe e por isso não tinha coragem de jogar no lixo não mais o medo seria forte uma vez na vida

três flores de tecido lilás
enchimento de algodão
caule de palito
mau gosto, até parece que não me conhece
folhas de feltro verde-bandeira
fiapos de palha imitando o quê
enfeite de plástico transparente
querendo ser
um diamante
até parece


caída no chão a visão restrita à mesinha no centro da sala marina não viu o mar seu último mergulho foi ali mesmo num instante com o frasco de comprimidos quase vazio na mão os olhos quase vazios fixos nas flores de mentira que mau gosto morrer numa manhã de abril