17 de julho de 2017

obturador


a máquina fotográfica é um instrumento óptico pra captar e gravar a imagem real em um filme sensível à luz, ó, presta atenção! ela me disse com a câmera na mão e o cabelo preso num rabo de cavalo, os dentes irradiando luz daqui até a lua ida e volta, pensei meio bobo

é como se fosse uma caixa escura com um orifício e no lugar desse buraquinho tem uma lente convergente, ou seja, que converge pra um único ponto os raios de luz que por ela atravessam, entende? falou com a voz mais fina que o normal e arregalando os olhos

essa lente se chama objetiva e possui um mecanismo que aproxima ou afasta do filme e torna a imagem nítida ou não. é pra gente achar o foco, sabe? quando se dispara a máquina, o diafragma se abre por uma fração de segundo e a luz entra e a sensibilidade do filme... olha isso! me mostra orgulhosa outra foto

tem também o obturador que serve pra controlar o tempo de entrada da luz. é como se fosse uma cortina que abre e fecha, viu? a velocidade dessa abertura determina o tempo de entrada... tu tá me ouvindo?

eu não ouvia. continuo não entendendo de máquinas fotográficas. tem algo de tempo, de luz, de sensibilidade. agora, o que me consome é esse teu retrato em preto e branco com a minha camiseta ao contrário e a nitidez da fumaça do teu cigarro pendurada naquele instante

16 de junho de 2017

numa brecha do dia

"portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteiga, azeite, geleia e espanto."
Matilde Campilho

e quanto mais eu tento fugir da minha essência ou me esconder da minha verdadeira força é quando te reencontro e ouço a tua voz me chamando. é quando algo ruim acontece e de súbito eu desperto como se estivesse prestes a me perder de mim mesma, isso, de mim mesma, aquela que você conheceu e se apaixonou em poucas horas, aquela menina do olho bonito das saias coloridas e dos perfumes de flor, aquela pra quem você escrevia quando acordava saudoso no meio da madrugada. aquela sou eu e muito mais. há algo em mim que só você conseguiu capturar em anos, eu diria em séculos e em mundos distintos e em qualquer galáxia nos encontraríamos e nos reconheceríamos. escreveríamos poemas um pro outro a noite inteira porque você e eu somos feitos do mesmo musgo. almas gêmeas e eu sei que você não acredita em nada disso bullshit não tem problema porque eu acredito por nós dois, mais ainda quando li que as almas gêmeas têm uma ligação tão forte e única que jamais conseguem ficar juntas, como duas retas paralelas que só se encontram no infinito. almas gêmeas são como espelhos, o reflexo uma da outra e então entendo. e quando algo quer me afastar de mim é em ti que eu penso, meu espelho, e me reestabeleço na mais profunda conexão comigo, volto a pisar o chão esmeralda e me sinto plena em essência pétala perfume poema. penso em nós dois embaixo das cobertas quando o frio ainda não tinha chegado e sempre havia um próximo filme pra ver. eu nunca quis me afastar de ti e nem de mim e não importa o que aconteça, nem quanto tempo passe, um ano já faz ou mais e eu estou aqui me reencontrando e amando o que você amou, o que só nós enxergamos, e a minha vontade é de te apertar bem forte e dizer obrigada, mas você vai tão longe que talvez não escute a minha voz. mesmo assim obrigada por despertar em mim o melhor, por fazer brotar. ainda te vejo indo balão azul em época de festa junina. naquela noite acho que morri um pouco. mas hoje à noite quando você fechar os olhos em frente ao espelho, no mesmo banheiro onde você também morreu um pouco, sinta-se abraçado. você sabia que o açúcar queima quando derrete rápido demais