16 de agosto de 2017

postcards from italy

chuva de saudade demora
eu corri pro violão num lamento
e a manhã nasceu azul
nos meus sonhos eu fujo
faço as malas e sumo
meio dia eu só penso em dizer não
o mundo está ao contrário
e ninguém reparou
e se não tivesse essa dor
de uma noite sentindo tua carne crua
não me lembro se tu disse alecrim ou alegria
vou em queda livre se o paraquedas não abrir
só deixo minha alma na mão de quem pode
e se a vida me trouxer o que eu pedi
trago nesses pés o vento pra te carregar daqui
e da minha voz se faz um poema pra guardar
dentro de uma concha branca no mar
o bico do beija-flor
beija-flor

17 de julho de 2017

obturador


a máquina fotográfica é um instrumento óptico pra captar e gravar a imagem real em um filme sensível à luz, ó, presta atenção! ela me disse com a câmera na mão e o cabelo preso num rabo de cavalo, os dentes irradiando luz daqui até a lua ida e volta, pensei meio bobo

é como se fosse uma caixa escura com um orifício e no lugar desse buraquinho tem uma lente que converge pra um único ponto os raios de luz que passam por ela, entende? falou com a voz mais fina que o normal fechando o olho direito e franzindo a testa

essa lente se chama objetiva e possui um mecanismo que aproxima ou afasta do filme e torna a imagem nítida ou não. é pra gente achar o foco, sabe? quando dispara, o diafragma se abre por uma fração de segundo e a luz entra e a sensibilidade do filme... olha isso! me mostra orgulhosa outra fotografia

tem também o obturador que serve pra controlar o tempo de entrada da luz. é como se fosse uma cortina que abre e fecha, viu? a velocidade dessa abertura determina o tempo de entrada... tu tá me ouvindo?

eu não ouvia. continuo não entendendo de máquinas fotográficas. tem algo de luz, de sensibilidade, de tempo. agora, o que me consome é esse teu retrato em preto e branco com a minha camiseta ao contrário e a nitidez da fumaça do teu cigarro pendurada naquele instante

16 de junho de 2017

numa brecha do dia

"portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteiga, azeite, geleia e espanto."
Matilde Campilho

em frente ao fogão um cheiro doce inunda a cozinha. e quanto mais eu tento fugir da minha essência ou me esconder da minha verdadeira força é quando te reencontro e ouço a tua voz me chamando. é quando algo ruim acontece e de súbito desperto como se estivesse prestes a me perder de mim mesma, isso, de mim mesma, aquela que você conheceu e se apaixonou em poucas horas, a menina do olho bonito das saias coloridas e dos perfumes de flor, aquela pra quem você escrevia quando acordava saudoso no meio da madrugada. aquela sou eu e muito mais. há algo em mim que só você conseguiu capturar em anos, eu diria em séculos e em mundos distintos e em qualquer galáxia nos encontraríamos e nos reconheceríamos. escreveríamos poemas um pro outro a noite inteira porque você e eu somos feitos do mesmo musgo. almas gêmeas. e eu sei que você não acredita em nada disso bullshit não tem problema porque eu acredito por nós dois, mais ainda quando li sobre almas gêmeas terem uma ligação tão forte e única que jamais conseguem ficar juntas, como duas retas paralelas que só se encontram no infinito. almas gêmeas são como espelhos, o reflexo uma da outra e então entendo o que você sentiu. e quando algo quer me afastar de mim é em ti que eu penso, meu espelho, e me reestabeleço na mais profunda conexão comigo, volto a pisar o chão esmeralda que você desenhou naquele bilhetinho e me sinto plena em essência perfume poema. penso em nós dois embaixo do lençol quando o frio ainda não tinha chegado e sempre havia um próximo filme pra ver. eu nunca quis me afastar de ti e nem de mim e não importa o que aconteça, nem quanto tempo passe, um ano já faz ou mais e eu estou aqui me reencontrando e amando o que você amou, o que só nós entendemos, e a minha vontade é de te apertar bem forte e dizer obrigada, mas você vai tão longe que talvez eu não te alcance. mesmo assim obrigada por despertar em mim o melhor, por doer e brotar. ainda te vejo indo balão azul em época de festa junina. naquela noite acho que morri um pouco. mas hoje à noite quando você fechar os olhos em frente ao espelho, no mesmo banheiro onde você também morreu um pouco, sinta-se tocado. você sabia que o açúcar queima quando derrete rápido demais