16 de junho de 2017

numa brecha do dia

"portanto eu pego minha bicicleta
e como de costume você faz meu retrato
de cabelo todo desenhado no vento
em jeito de menino que está sempre indo embora
à mesma hora e que amanhã se tudo der certo
voltará à mesma hora para o mesmo amor
a mesma mesa a mesma explosão
com toda a certeza a mesma fuga
porque você e eu a gente é feito de matéria
escorregadia, i.e., manteiga, azeite, geleia e espanto."
Matilde Campilho

em frente ao fogão um cheiro doce inunda a cozinha. e quanto mais eu tento fugir da minha essência ou me esconder da minha verdadeira força é quando te reencontro e ouço a tua voz me chamando. é quando algo ruim acontece e de súbito desperto como se estivesse prestes a me perder de mim mesma, isso, de mim mesma, aquela que você conheceu e se apaixonou em poucas horas, a menina do olho bonito das saias coloridas e dos perfumes de flor, aquela pra quem você escrevia quando acordava saudoso no meio da madrugada. aquela sou eu e muito mais. há algo em mim que só você conseguiu capturar em anos, eu diria em séculos e em mundos distintos e em qualquer galáxia nos encontraríamos e nos reconheceríamos. escreveríamos poemas um pro outro a noite inteira porque você e eu somos feitos do mesmo musgo. almas gêmeas e eu sei que você não acredita em nada disso bullshit não tem problema porque eu acredito por nós dois, mais ainda quando li sobre as almas gêmeas terem uma ligação tão forte e única que jamais conseguem ficar juntas, como duas retas paralelas que só se encontram no infinito. almas gêmeas são como espelhos, o reflexo uma da outra e então entendo. e quando algo quer me afastar de mim é em ti que eu penso, meu espelho, e me reestabeleço na mais profunda conexão comigo, volto a pisar o chão esmeralda que você desenhou naquele bilhetinho e me sinto plena em essência perfume poema. penso em nós dois embaixo das cobertas quando o frio ainda não tinha chegado e sempre havia um próximo filme pra ver. eu nunca quis me afastar de ti e nem de mim e não importa o que aconteça, nem quanto tempo passe, um ano já faz ou mais e eu estou aqui me reencontrando e amando o que você amou, o que só nós entendemos, e a minha vontade é de te apertar bem forte e dizer obrigada, mas você vai tão longe que talvez eu não te alcance. mesmo assim obrigada por despertar em mim o melhor, por doer e por brotar. ainda te vejo indo balão azul em época de festa junina. naquela noite acho que morri um pouco. mas hoje à noite quando você fechar os olhos em frente ao espelho, no mesmo banheiro onde você também morreu um pouco, sinta-se tocado. você sabia que o açúcar queima quando derrete rápido demais